Meu corpo, minha gestação, minhas decisões.

IMG_11181998921398Certa vez decidi que iria operar o nariz. Convenci o meu pai da necessidade daquela cirurgia de desvio no septo que, de quebra, ajeitaria algo que me incomodava esteticamente. Não me lembro detalhes do dia da cirurgia, mas me lembro de quando acordei, deitada em uma maca sem conseguir abrir os olhos. A sala estava lotada de pessoas gritando de dor, reclamando e chamando as enfermeiras. Não sei onde eu estava, mas devia ser algum tipo de pós operatório. Perdi as contas de quantas vezes chamei a enfermeira e disse que eu já estava recuperada, que me sentia bem e que gostaria de ir embora. O clima daquela sala estava bastante tenso e sem conseguir respirar ou abrir os olhos, tudo parecia pior. Junte a isso, uma certa aversão que eu já carregava a hospital. A enfermeira vinha, checava a minha pressão e dizia “Sua pressão está boa, por que você não abre os olhos?” eu respondia “Não sei, arde muito, não consigo abrir…” e ela saia andando, dizendo que era normal, que era efeito da anestesia. Ela passava de novo e eu a segurava “Moça, não é da anestesia, eu já tomei essa anestesia antes… Eu não consigo abrir os olhos mas já estou acordada faz muito tempo… Já ouvi você checar todo mundo aqui…” ela saia de novo e dizia que então eu ia ter que esperar um médico chegar para explicar aquilo para ele, mas que ele só viria a tarde. Obviamente, minutos depois eu estava surtando dentro da sala, gritando e chamando minha mãe. A bagunça foi tanta que eles mandaram buscá-la. Me colocaram em uma cadeira de rodas e me levaram para uma salinha para conversar com ela, afinal, eu ainda não conseguia abrir os olhos. Aos prantos, pedi que ela fizesse alguma coisa e me tirasse dali, pois ninguém me escutava. Minha mãe, mais conhecida por aquela que consegue até atestado de óbito pra gente viva, deu seu jeito e conseguiu um médico que viesse me ver e constatar que eles haviam esquecido o meu olho aberto durante toda a cirurgia e agora estava ressecado ao extremo. Não era por conta da anestesia. Assim, ele me deu alta e eu fui pra casa, onde fiquei mais dois dias com o nariz e os olhos tampados. Eu tive que pingar vários colírios no olho, por conta de uma cirurgia no nariz.
O hospital que eu estava era particular.
É lógico que eu sou o tipo de paciente mais complicado do mundo – odeio hospital e digo com tranquilidade que também odeio alguns tipos de profissionais da saúde.
Mas enfim, esse foi um dos grandes motivos que me fizeram buscar um parto domiciliar planejado. Tiveram outras grandes razões, mas eu entro em detalhes em outro post. Acontece que eu já tinha uma certa pré disposição a me sentir mal em hospitais e o episódio do nariz/olho, só consagrou o trauma.
Não podia me imaginar entrando em uma sala de cirurgia para ter o meu bebê “removido” de mim. Meu maior medo era que, eu – conhecedora master do meu próprio corpo, com 27 anos de experiência prática com o mesmo até então, não fosse ouvida no momento mais importante da minha vida. E não digo só ouvida com relação a opção de uma episiotomia ou não (o famoso “piquezinho” que no fundo é do tamanho do continente africano), de uma cesárea ou não; digo ouvida no sentido de realmente precisar de algum cuidado específico, e aquele cuidado ser negado – a mim, e ao meu filho – no momento do parto, como quando disse que meu olho ardia e a enfermeira me acusou de não saber de nada. Tinha, com toda sinceridade, o medo que o hospital botasse a nossa vida em risco, como não negam as estatísticas.
Logo que comecei o pré natal, já comecei a encrencar. Primeiro, a médica me receitou o tal do ácido fólico. Como todos os meus exames diziam que eu estava bem, optei por não tomar. Quando voltei na médica, no terceiro mês, ela basicamente me disse que se o meu bebê nascesse com qualquer problema eu seria culpada e que eu nunca poderia me perdoar (eu já havia não tomado a tal vitamina, ajudava muito ela pressionar com uma coisa dessas). Até hoje penso em bater no consultório dela e apresentar o meu filho. Apgar 10. Extremamente saudável, manifestando a primeira doença (leia-se gripe de creche) apenas aos 8 meses de idade; mesmo eu não tendo tomado vitamina alguma durante gravidez. Ou ele, depois que nasceu. Ela provavelmente diria que é sorte. Eu digo que são as escolhas. Depois, me mudei para Brasília e como estava sem convênio médico, comecei a fazer o atendimento no posto de saúde. Era adorável. Você chegava lá as 7h da manhã para ser atendida quando a médica resolvesse chegar, o que geralmente significava umas 10h da manhã, e a consulta durava menos de 10 minutos – quando durava muito. Além de todos os insultos que você poderia ouvir, nesse meio tempo, das “enfermeirinhas” (acredito que elas não se incomodem com esse tipo de diminutivo carinhoso; elas sempre me chamavam de “mãezinha”), que brigavam com você por você chegar lá com pressão alta, baixa ou ganho demasiado de peso (leia-se mais de 1kg por mês, porque afinal, nós somos uma máquina e além de tudo, uma máquina imperfeita).
Meu convênio regularizou no final da gestação e eu resolvi fazer uma consulta com um obstetra do convênio, para o caso de um indicativo real de cesárea. Quando cheguei lá, ao ver que a minha gravidez estava avançada, ele já me foi bem direto “Eu não vou te enganar, afinal, você está já no final da gestação… Eu não faço parto normal, imagina se eu tiver que ficar 12h no hospital com você?! Vou ter que desmarcar toda a minha agenda! Mas se você optar por uma cesárea, você vem aqui, me avisa e já vai indo para o hospital, quando eu terminar de atender, eu vou lá e opero você”. Acho que ele não tinha entendido que estava falando comigo do momento mais importante da minha vida. O hospital do convênio era atravessando a rua do consultório.
Optei por continuar o atendimento no postinho mesmo. Era bizarro, mas percebi que podia ser pior. Pelo menos a rede pública ainda “quer” ($) um parto normal. A rede pública, não os profissionais da saúde que atuam ali.
Nunca tive uma dúvida esclarecida em uma consulta, uma demonstração de que a médica sabia ao menos o meu nome ou qualquer preocupação real com a minha gravidez. O atendimento era rápido, frio e absurdamente precário. Tive até um exame negado pelas “enfermerinhas” porque elas disseram que não estava na hora de fazer o mesmo. Mesmo a médica tendo solicitado.
Ao final da minha gestação, fiz um ultrassom que indicava o famoso “pouco líquido”. Nunca voltei para fazer outro.
Faltei das últimas consultas do postinho no pré natal. Nunca acontecia nada nelas mesmo.
Meu filho nasceu de parto normal, domiciliar, planejado, tranquilo.
Dois dias depois dos primeiros sinais de parto.
Com 41 semanas e 1 dia.
E hoje, quando olho a notícia do que aconteceu em Torres – RS, não consigo deixar de pensar que aquela mulher, que teve o seu parto roubado, que sofreu tamanha violência, poderia ter sido eu. Faltante das consultas de pré natal, “displicente” quanto ao uso de vitaminas, “relapsa” quanto a indicação de pouco líquido amniótico e principalmente: mulher empoderada, com a certeza de que nasceu para parir.
Ao menos aos olhos da sociedade.
Eu nunca faltei a uma consulta com as minhas parteiras. Nunca cheguei atrasada. Nunca saí com dúvida das consultas que duravam cerca de 1h.
Também, sempre fui acolhida. Sempre fui respeitada. Tinha a certeza de que eu era reconhecida com um único olhar. Todos os meus problemas eram tratados nesse pré natal; tanto os físicos, quanto os emocionais (que ao meu ver, representam pelo menos 50% de um trabalho de parto).
Elas me davam a certeza de algo que eu já desconfiava: eu havia nascido para parir.
E não estávamos erradas; a natureza me deu esse ofício. Ofício este, que o Estado não tem direito algum de tirar – mas achou que deveria, no caso da Adelir.
O Estado entrou em sua casa e a levou a força para uma cirurgia desnecessária.
Imagina isso acontecendo com você.
A alegação era de que o bebê estava sentado e com circular de cordão. Como se houvesse alguma lei proibitiva nesses casos. É difícil encontrar médicos que aceitem essas condições, mas elas não são indicativos obrigatórios de cesárea. Se você duvida, procure no YouTube como esses bebês nascem. Fico me perguntando então, qual foi o embasamento da Justiça, já que existem médicos no Brasil que fazem partos normais com bebês pélvicos e a quantidade de parto normal com circular de cordão é absurda. Eu mesma faço parte dessa estatística do “cordão assassino”. Nasci de parto normal, com cordão enrolado no pescoço – e não, apesar da minha mãe acreditar o contrário, a médica não me salvou. A natureza não seria tão cruel, você não acha?! Na verdade, ela não seria tão desatenta de colocar essa “arma” dentro do útero junto com a promessa da procriação da espécie. “Cordão assassino” simplesmente não existe.
Eu estudei a minha gravidez inteira. Pesquisei, li, perguntei. Aliás, o Dr. Google foi e é, até hoje, o meu médico predileto. O meu “médico da família”.
Minhas decisões foram baseadas em evidências científicas publicadas e não em “achismos” ou carteiradas de GO que “sempre fez assim”. Me baseei no que eles deveriam se basear, com todos esses anos de estudo. Mas não, eles preferem fazer o mesmo parto de 50 anos atrás. Porque sempre foi feito assim.
Pode sempre ter sido feito assim, mas no meu corpo, foi e sempre vai ser diferente. Porque aqui, quem manda, ainda sou eu. Seja na decisão de um parto, seja na decisão de um sexo. Quem decide sou eu. E não o Estado. E não o machismo.
Nenhuma mulher merece ser estuprada. Nenhuma mulher merce ser violentada de qualquer forma que seja. Nenhuma mulher merece ter os seus direitos roubados.
Na verdade, nenhum ser humano merece.
Então essa luta, essa revolta, é contra o Estado querendo controlar o nosso corpo. Querendo torná-lo público.
Ninguém vai estatizar a minha única e verdadeira propriedade privada por direito. Não enquanto eu puder respirar.

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