Sessão #1 – O Começo

Olá Doutor, tudo bem se eu me sentar aqui?

Ah sim, claro né… Nem sei porque perguntei afinal, qual seria a outra razão para um divã no meio da sua sala?!

Enfim… O motivo pela qual eu te procurei é que, não é que eu esteja louca nem nada desse tipo, é que eu ando me sentindo assim 99% do meu tempo. O 1% do tempo que eu não me sinto assim… Bom, digamos que é quando eu estou dormindo (se é que eu consigo dormir 1% do meu tempo sem ser interrompida por um tapa da realidade).

Eu sei que parece loucura, mas acontece que eu tenho achado cada dia mais difícil conviver comigo sabe… Semana passada por exemplo, eu cheguei em casa e subi até o terceiro andar de escada, sendo que o meu prédio tem elevador… Que tipo de pessoa faz isso?!

Eu sei, eu sei que eu ando precisando emagrecer uns quilinhos que eu já tinha perdido e recuperei recentemente – inclusive, o personal que me acompanha vai ficar bastante decepcionado comigo quando descobrir – mas a questão é, qual tipo de pessoa se esquece do andar em que mora?!

Meu apartamento é o 21, não o 31.

Eu percorro esse caminho, milhões de vezes, todos os dias. É impossível errar.

Ah Doutor, ultimamente a minha vida tem se resumido a um eterno esquecer-se de tudo…

Você acredita que eu já tentei abrir a porta de casa apertando o botão do alarme do carro?! E que já dei mamadeira sem o leite para o Zion?! Nossa, são tantas coisas que eu tenho feito, que eu nem sei por onde começar.

A propósito, Zion é o meu filho. Meu filho de 1 ano… 1 ano inteiro.

Digo isso porque acho que só dá para começar a explicar o que tem acontecido comigo, se eu contar como tudo começou entre nós dois. Como nós acabamos por dividir a nossa vida, um com o outro.

Não liga não viu Doutor, eu tenho essa mania de “falar mais do que a boca”, como costumava dizer meu pai. Eu nunca deixo as pessoas falarem… Quando eu vejo já estou emendando um assunto no outro e a pessoa que está comigo ainda nem conseguiu abrir a boca; fico lá tagarelando que nem uma doida.

Acho que eu vim aqui pra resolver um pouco disso também. Quero acabar com esse meu blá blá blá descontrolado.

Mas até que você também não é muito de falar, não é Doutor? Aí fica esse silêncio infinito por aqui e quando eu vejo, já fui logo preenchendo ele novamente.

Será que você também poderia me ajudar com isso? Me ajudar a enfrentar os silêncios com mais tranquilidade?

Mas enfim, como eu estava dizendo, tudo isso começou com uma vontade louca de conhecer o mundo. Sim, eu queria tão desesperadamente conhecer o mundo todo, experimentar tudo; que eu não conseguia nunca parar em um só lugar – mudava de cidade o tempo todo. Quando não era a cidade que eu mudava, eu trocava de curso, de faculdade, de trabalho, de casa, de cabelo, de estilo… Trocava os móveis de lugar, os amigos com quem eu saía, os lugares que eu frequentava. Eu não conseguia parar quieta.

Já morei nos EUA, em Ribeirão Preto, Bauru, Florianópolis, Balneário Camboriu, Brasília e agora, aqui, na terra vermelha de novo. O cabelo já foi curto, comprido, com franjinha, fio reto, chanelzinho, joãozinho, rosa, roxo, azul, loiro, ruivo, já tive rasta e acredite ou não, até já tive dreads… Ah… E como eram lindos os meus dreads… Eram compridos, até a altura do bumbum… E eram no cabelo todo, não só um aqui ou outro ali.

Eu sempre fui assim… Enjoada.

Eu enjoava de tudo.

Minha mãe conta que quando eu era pequena eu ia no cabeleireiro e fazia a maior pirraça para que a profissional me fizesse um penteado daqueles de revista. A coitada, cansada do chororô, ia lá e fazia. A doidona aqui, olhava no espelho e dizia “Gostei, agora tira”.

Diz a lenda que eu fazia isso todas as vezes.

A única diferença entre essa época que a minha mãe conta e a que eu estou contando agora, é que eu já engordei uns bons quilos desde então. A atitude “Gostei agora tira” certamente continuou a mesma.

Foram muitos anos vivendo dessa maneira: eu arrumava a casa pensando se estava tudo fácil o suficiente para encaixotar se eu quisesse ir embora. Para você ter uma ideia, eu cheguei a me mudar 10 vezes de casa, em 6 anos, quando morei em Florianópolis; assim, por problema nenhum. Uma hora eu queria morar perto da praia, outra hora eu queria morar perto da faculdade e na outra já queria era ficar perto da lagoa.

Na verdade eu sempre queria tudo. Tudo junto e ao mesmo tempo.

Até que um dia, uma amiga chegou em mim e disse “Olha, eu conheço uma comissária de voo e ela também é assim, desse seu jeito… Bem, pelo que ela conta da profissão, eu acho que tem muito a ver com você, acho que você iria gostar”.

Fiquei com aquilo na cabeça, mas na época eu tinha esse pensamento maluco de que só poderia se tornar comissário de voo quem fosse filho de piloto de avião ou quem tivesse pelo menos nascido por ali, nas redondezas do aeroporto, sabe?!

Sei lá de onde a minha cabeça tirava essas idéias… Sempre me sobrou criatividade e me faltou dinheiro.

Mas no final das contas ela me apresentou a tal garota e não foi preciso muita conversa para eu me interessar né Doutor… Bastaram algumas palavras contando que ela trabalhava em São Paulo mas morava em Florianópolis para que eu já ficasse vislumbrada com a tal ideia de ser comissária. Imagine só Doutor, eu tinha encontrado um emprego em que o meu maior defeito, era a maior das qualidades.

Sim, os meus problemas tinham acabado.

Passei imediatamente de hippie mal vestida à patricinha mal arrumada porque, como você pode nitidamente perceber pela maneira em que eu estou vestida; me arrumar de um jeito esquisito sempre foi um hábito, que por sinal, eu ainda não perdi. A questão, é que foi naquela época que eu comecei a usar sombra nos olhos, batom vermelho e cabelo engomado. Além do salto alto, é lógico.

Quem sabe com essas nossas consultas a gente não consegue descobrir porque raios eu ainda faço isso? Porque será que eu continuo me vestindo esquisito Doutor? Aliás, diga-se de passagem, com a maternidade parece que a coisa deu uma boa piorada.

Bom, eu corri atrás do meu novo sonho. Tracei um plano de ataque e comecei a batalha. Foram dois anos na missão. Comecei e parei o curso de comissário três vezes. As donas da escola, que já me chamavam pelo nome, tinham se acostumado com o meu famoso e conhecido some/aparece. Mas até hoje agradeço o voto de confiança que elas me deram. Acho que era nítida a minha certeza de que aquela profissão tinha sido feita pra mim; e eu ia conseguir de qualquer jeito, nem que eu levasse a vida inteira tentando. Elas sabiam que eu parava e recomeçava porque eu tinha uma rotina cansativa naquela época… Eu fazia o curso de manhã, trabalhava a tarde e fazia a faculdade a noite; além de trabalhar em um projeto de extensão que também me exigia uma certa dedicação em casa. Quando não era isso, eu estava fazendo um bico nas portarias dos sambas da madrugada, para ganhar um dinheirinho extra. Mas uma hora eu consegui terminar. Aos trancos, mas consegui.

Arrumei um emprego no aeroporto e depois fui chamada para trabalhar no balcão da empresa que eu tanto queria. A dona TAM. No fundo, eu acho que eles me contrataram por piedade; eu deixava o meu currículo no RH quase toda semana… Cada hora eu inventava uma desculpa diferente para fazer isso – é que eu troquei a foto, atualizei o endereço, eu mudei de telefone… E assim foi até o dia em que o rapaz se levantou e disse “Espera, você trabalha aqui no Aeroporto?!” – eu quase morri. Na semana seguinte fiz a seleção e 4 meses depois eu fui chamada. 4 meses depois. A empresa congelou as contratações logo quando eu fui selecionada. Bacana né Doutor?!

Eu comecei a trabalhar e meu objetivo era certeiro – migrar para o voo. Era preciso trabalhar um ano na mesma função antes de pedir migração; além da necessidade da disponibilidade da vaga para o cargo que você pretendia ir. Só assim você poderia tentar uma nova seleção.

Assim que eu fiz um ano de empresa, abriram novas vagas de migração interna para comissários de voo. Nem acreditei. Eu obviamente estava atrasada e não tinha feito a minha prova da ANAC do curso de comissário (por motivos financeiros), mas em 5 dias, eu estudei toda a matéria que eu tinha visto no curso, dois anos antes.

Não preciso comentar o quanto essa semana cheirou café não é mesmo?!

Alguns meses depois eu abri o email que dizia “A sua carreira acaba de decolar, parabéns”.

Choro de emoção ao me lembrar desse momento.

A luta que foi.

Eu sentada sozinha na sala, olhando para o computador, ele olhando para mim.

É Doutor, nós sempre fomos grandes amigos.

E junto com aquele email, mais uma mudança dava o ar da graça, em minha vida – a vaga era em Brasília. Mas isso, para mim, era apenas um detalhe. Eu ia ser comissária de voo. Não haviam mais limites de tempo ou espaço.

Eu tinha um plano sabe Doutor… Trabalharia dois anos na TAM, até que eu conseguisse remover todas as minhas tatuagens para poder ir trabalhar por três anos na Emirates – onde eu, além de dar a volta ao mundo sem gastar nem um centavo, juntaria dinheiro – já que o salário por lá, é isento de impostos. Eu voltaria para o Brasil e seria readmitida pela TAM, onde trabalharia até terminar o meu curso de piloto de helicóptero.

Sim Doutor, eu esqueci de dizer que nesse meio tempo eu tinha decidido pilotar helicópteros.

E eu sei, eu sempre tive essa mania insana de planejar a vida da mesma forma que uma criança de 7 anos faria.

Mas tudo ia nos conformes… Até que eu enjoei.

Sempre fui fã de chocolate, sabe como é (me isento da necessidade de explicar esse tipo de coisa né Doutor). Então, eu estava na praia e fui ao mercado, comprar sei lá o que… Era umas 10h da manhã. Entrei no carro e lá estava aquela barra de chocolate da noite passada – eu tinha passado a noite dançando Maracatu com Afoxé em Florianópolis, com um grupo que eu costumava tocar, e eu tinha voltado de madrugada. Quando fui descer do carro, um simples olhar na direção daquele pedaço de mal caminho e meu estômago já começou a se contorcer. Você pode achar essa reação normal, já que era de manhã. Acontece Doutor, que naqueles 27 anos de vida, eu NUNCA havia sentido enjoo por chocolate. Nunca.

Eu imediatamente pensei na noite anterior. E na minha falta de ar para dançar. E na minha tontura dentro do carro durante o retorno. E naquela continha que eu fazia mentalmente, enquanto olhava para estrada, que resultava no número 10.

10 dias de atraso.

Corri para farmácia do supermercado, desesperada.

“1 teste de gravidez por favor… E 1 copo descartável”.

Foi ali mesmo, naquele banheiro de supermercado, que a minha vida encontrou, pela primeira vez, com a do Zion. A dele, obviamente, já havia encontrado com a minha, 4 semanas antes.

Entenda Doutor, aquilo tudo representava o mundo para mim; o meu mundo – a minha formatura do voo era na próxima semana, eu começaria a voar no mês seguinte. Eu estava a um passo do meu sonho, e eu sabia que eu não poderia voar com um bebê na barriga. Pelo menos não como comissária.

Mas aquilo era tão improvável – eu tomava anticoncepcional desde a minha segunda menstruação, sem nunca ter parado (inclusive, todo mundo sempre me condenava dizendo que se eu não fizesse uma pausa, eu jamais conseguiria engravidar quando eu quisesse) e quando a desventura aconteceu, eu tomei aquela do dia seguinte… Duas vezes, inclusive. Só para ter certeza de que funcionaria – esse era o nível da minha neurose.

Mas improvável, definitivamente não significa impossível.

Me lembro perfeitamente daquele “não, não, não, NÃO” que eu pronunciava em voz alta, dentro da cabine do banheiro, enquanto o traçinho que confirmava a gravidez ficava mais e mais visível. Me lembro de como eu tentei me convencer de que como o traço apareceu bem clarinho, provavelmente não significava nada.

Aí, me lembro de pegar o “manual de instruções” do teste e ler ‘Não importa a intensidade do segundo traço, se ele aparecer, você está grávida’.

Mas que maneira indelicada de confirmar uma notícia dessas não é Doutor?! Nem me convidaram para tomar um cafézinho primeiro… Brincadeira, eu provavelmente teria me sentido enjoada. Mentira, nem grávida eu me sentiria enjoada com café.

Mas, pior do que isso Doutor, só o meu jeito peculiar de contar as coisas…

Cheguei em casa do supermercado e disse: Y, acho que agora nós somos uma família.

O Y ficou em silêncio. A gente mal se conhecia. E ele vinha no mesmo barco profissional do que eu.

Foram mais dois testes de farmácia naquele mesmo dia. As vezes a gente demora para acreditar que o sobrenome da vida é Murphy.

Era sábado. Deu tracinho nos dois.

Segunda ás 10h da manhã eu já tinha o positivo do exame de sangue nas mãos: 3-4 semanas.

E assim foi Doutor, a loucura chutou a porta da minha vida, meteu o pé no sofá da sala e pegou o controle remoto da diversão. E eu continuo aqui, agradecendo todos os dias por toda essa bagunça.

Enfim, acabei de ver aqui que já são 23h e amanhã o dia vai ser longo.

Obrigada por hoje, amanhã eu conto mais… Vou tentar falar menos da próxima vez, acho que hoje eu exagerei na dose… Eu ainda nem ouvi a sua voz.

Aliás Doutor, como é mesmo o seu nome?

Bates. Doutor Norman Bates.

Norman Bates

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