Sessão #2 – A Repercussão

Oi Doutor, desculpe o atraso… Como eu te disse ontem que seria, o dia foi mesmo longo. Na verdade, o dia não, a noite. O Zion continua acordando a noite inteira e isso acaba comigo.

Eu tinha esperanças de que quando ele fizesse um ano, magicamente ele começaria a dormir a noite inteira… Acho que já comecei a reproduzir o delírio expectativa/decepção que os pais costumam viver com os filhos não é mesmo?

Ficam sempre esperando que, assim como em um passe de mágica, os seus filhos adquiram responsabilidade ao fazerem 18 anos… Aí um dia eles fazem 28 e continuam desempregados e dependentes. Não sei o que acontece com a gente…

Antes de engravidar, ficamos repetindo constantemente “filho é para a vida inteira, filho é para a vida inteira” e depois, ficamos querendo que eles se tornem independentes logo… Aí eles se tornam, e queremos que eles voltem…

É um eterno dilema de gato e rato não acha Doutor? Mas eu sei que eu também já estou ficando assim…

Mas então, onde foi mesmo que eu parei na consulta de ontem? Ah sim, no positivo.

Tenho certeza que o resultado desse teste não se chama ‘positivo’ a toa.

Aquele tracinho, quase imperceptível, mudou completamente a minha vida a partir do exato momento em que ele apareceu.

Me lembro dele enquanto eu me olhava no espelho pela última vez no meu vestido de comissária.

Me lembro dele no laço do meu lenço, apertado à minha garganta, com as lágrimas por entre os olhos. Escorriam enquanto eu puxava a minha mala naquele último dia de curso, naquele hotel em São Paulo. Eu sabia que as coisas nunca mais seriam iguais.

O Y me abraçava e tentava me confortar “Vai ficar tudo bem” – eu secava os olhos e dizia que eu não podia borrar a maquiagem.

Sempre fui assim. Durona por fora; gelatina quente por dentro.

Não quero que você me entenda mal Doutor – eu amo meu filho mais do que tudo nessa vida.

E certamente não tenho nenhum arrependimento quanto ao nosso encontro – sua vinda com certeza foi um encontro não só meu com ele, como também, meu comigo.

Acontece que eu não vim até aqui para ficar contando mentiras… Eu vim até aqui, para contar o que de fato, aconteceu.

Sei que posso ficar malvista ao contar isso, mas eu nunca me senti obrigada a continuar com essa gravidez. Seguir com ela foi, ao meu entender, uma escolha – muito bem pensada, por sinal. Uma decisão tomada no final de semana em que eu me deparei com esse positivo.

Para mim, a decisão sempre foi minha. E à tomei consciente das dificuldades, principalmente emocionais, que eu enfrentaria.

Não sei que tipo de repercussão a ideia de uma gravidez “imposta” pelo destino, poderia ter causado na minha vida como mãe.

Eu quis dar uma chance aquela vida.

Hoje, percebo que a chance que eu dava, não era à vida dele, mas sim à minha.

‘Aquela’ vida à que eu me referia, era no fundo, a minha.

E, definitivamente, foi a melhor decisão que eu já tomei.

Acontece, que ao contrário de muitas mulheres, eu nunca almejei ser Mãe. E quando eu digo nunca, eu quero dizer nunca. Nem por uma única vez, antes de ter engravidado, passou pela minha cabeça a ideia de constituir família. Como eu já disse Doutor, eu queria viajar o mundo… E sempre fui muito sozinha.

O pior, é que eu gostava de ser assim…

Quando eu era pequena, eu detestava brincar de Barbie – minha prima sempre reclama que eu era uma chata; montava a casa da boneca, trocava suas roupas e na hora de brincar eu dizia o meu famoso “Enjoei”.

Mas para mim, eu já tinha brincado.

Eu não queria ser a Barbie…

Eu queria ser o arquiteto, o estilista… Eu queria ser o médico – queria cortar aquela perna de borracha para ver como o seu joelho funcionava (eu super me senti o maluco do Hitler ao dizer isso)… Mas eu queria ser o engenheiro entende?! Eu queria era saber porque é que uma boneca dobrava a perna e a outra não. Eu simplesmente não queria ser a Barbie. Eu queria ser a descoberta.

Para completar essa personalidade curiosa, passei quase dois anos da minha adolescência nos Estados Unidos da América; e lá, em uma cidadezinha no Texas, eu descobri que a vida de mãe solteira pode ser muito dolorida, ao cuidar do filho de uma.

E foi exatamente assim, que eu formei a minha opinião: criança, eu só cuido se for a minha e essa ‘minha’, eu só vou fazer se for com o Brad Pitt.

Com o tempo eu passei a pensar em uma exceção no caso do Jonny Depp. Mas a ideia era basicamente essa.

Essa “anti-maternidade” era tão forte em mim Doutor, que eu não me lembro de uma única pessoa que não ficou profundamente surpresa ao me descobrir grávida. Ninguém acreditava quando eu contava. Eu pensava que era por conta do meu modo peculiar de contar essas coisas, mas depois eu descobria que era por espanto mesmo.

E no fundo, eu sei que boa parte dessas pessoas, além de não acreditarem que eu estava grávida, pensavam que eu estava era cometendo um grande erro na minha vida. Seja por motivos profissionais – já que eu havia acabado de conseguir o emprego que eu tanto queria; ou seja por pensarem que no fundo, eu seria um verdadeiro desastre nessa função.

Como se alguém, além do seu próprio filho, pudesse saber o suficiente para fazer esse tipo de julgamento.

Mas eu sabia que eu era diferente. Eu sabia que quando eu decidia fazer uma coisa, eu dava o melhor de mim.

Quando cabe à maternidade, o melhor de você, é mais do que suficiente. Uma pena que nós, mães, demoramos tanto tempo para perceber esse tipo de coisa. Nós somos tão exigentes…

Sabe Doutor, ninguém se entrega com tanta verdade quanto uma mãe. Ninguém dá o melhor de si com tanta vontade quanto uma mãe.

E eu acho que é essa sinceridade, essa garra na entrega, que torna o melhor de qualquer mãe, mais do que suficiente, para qualquer filho. Independente do quanto isso seja.

Nossos filhos, são pedaços de nós mesmos. Como poderiam se contentar com algo diferente de si?

Voltando ao ponto Doutor – preciso parar com essa mania de ficar devaneiando; sempre faço isso quando tomo muito café. E eu nunca tomo pouco.

Então, com aquele positivo na mão, eu vesti meu uniforme pela última vez antes de ser afastada e liguei para a escala informando que eu estava grávida. Ao contrário da bronca que todo mundo falou que eu iria levar, tudo o que eu ouvi foi um “Parabéns Comissária”.

Eu voltei para a escala um ano depois daquele telefonema, mas isso é pano para outra manga.

Vou encerrar por aqui Doutor, continuo amanhã.

Dessa história eu ainda tenho muito para contar e eu havia prometido que não me estenderia tanto quanto ontem.

Você fica bem… E manda um abraço para sua mãe, eu tenho certeza que ela também fez o melhor que ela pôde.

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A última vez que eu vesti meu uniforme sem saber que eu não estava sozinha.

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