Sessão #3 – A Gestação

Como vai Doutor?

Eu estou quebrada… Meu filho tem menos do que um metro mas ainda assim, consegue ocupar uma cama Queen Size inteira. Eu, sinceramente, acho essa, uma habilidade impressionante.

Ele me fascina a cada dia com as suas peculiaridades.

Como aquela única pinta naquele dedinho miudinho da mão dele, ou a maneira engraçada que ele chacoalha o corpo quando escuta uma música qualquer… O jeito engraçado que ele bate palmas, a forma destrambelhada de caminhar, o jeito carinhoso que ele tem de me morder o nariz (sim, ele acha isso bastante engraçado).

Mas o que eu gosto mesmo, é da sua gargalhada.

Sabe Dr. Norman, eu nunca fui muito romântica… Mas hoje eu entendo perfeitamente a expressão “tal coisa é música para os meus ouvidos”.

Se o céu existe, para mim, ele com certeza mora na gargalhada do Zion.

Com toda essa conversa, digo monólogo, que a gente está tendo; muitas memórias começaram a pipocar na minha cabeça. Decidi dar uma revisitada no ultrassom do Zion, de quando ele ainda habitava a minha barriga.

Que experiência incrível!!!

Acho que toda mãe deveria ser incentivada a reviver esse encontro com o passado… A sensação é tão diferente!!

Dr. Norman, eu não sei como são as mães por aí e como foi a gestação para elas. Converso com algumas, por conta da minha área de atuação hoje, e percebo que sempre tem uma aqui ou ali, que assim como eu, não teve a gestação da novela das 20h. Pelo que a mídia mostra, nós definitivamente não somos a maioria; mas pelo meu convívio por aí, percebo que somos muitas.

Minha gravidez já começou esquisita: eu tinha recém me mudado para Brasília – inclusive, eu ainda morava em uma pensão; minha família morava em Ribeirão Preto, eu mal conhecia o Y do Zion; não tinha dinheiro guardado e ainda, ao ser afastada, passaria a receber pelo INSS – que como você já pode imaginar, não chega nem aos pés do seu salário né Doutor.

Brincadeira… Mas é verdade.

Juntamos a tudo isso, uma mulher que nunca na vida, imaginou que seria mãe um dia. Aí, para dar consistência à essa receita de bolo, adicione um apego bizarro ao próprio corpo e um ódio mortal por hospitais. Pronto. Gestação concebida.

Na minha primeira consulta à ginecologista, saí de lá com 12 mil exames a serem feitos e 17 bilhões de receitas para remédios e vitaminas a serem tomados.

Eu não estava doente… Mas era assim que eu me sentia.

“Você não pode pular, se não vai perder esse bebê.”

“Tocar Maracatu?! Você enlouqueceu?! Você está grávida, não pode!”

Não pode trabalhar, não pode nadar na água quente, não pode tomar chá preto, não pode nadar no mar, não pode tomar sol, não pode comer pimenta e principalmente, não pode reclamar.

Que tipo de grávida reclama de ter estrias ou de engordar 12kg em 9 meses? Que tipo de mãe pode conseguir reclamar de ter tonturas constantes, enjoos, azia (eu nunca tinha sentido isso antes) ou delírios emocionais por causa da guerra hormonal que o próprio corpo vivência?! Que tipo de pessoa reclama de pés inchados, calor e frio ao mesmo tempo, mudanças alimentares, intestino preso, xixis e mais xixis no meio das noites?!

Porque pelo que eu vivenciei Doutor, a gravidez também é isso.

Mas você não pode reclamar. Porque a sociedade entende que reclamar desse tipo de coisa, faz de você uma péssima mãe.

Eu já não acho isso não Doutor. Eu acho, que é justamente o passar por todas essas coisas que você odeia, reclamando ou não, que também faz de você uma mãe. Afinal, não tem pecado nenhum em não gostar de se sentir feia em tudo que veste. Até onde eu sei, todo mundo é assim… Ou você é diferente Doutor?

De qualquer maneira, minha primeira médica foi um inferno. Ela disse que eu era uma mãe horrível porque eu tinha optado por não tomar as vitaminas do primeiro trimestre. Tentei explicar para ela que eu não estava doente, que meus exames estava ótimos e que eu me sentia mal ao tomar tanto medicamento, mas nada adiantou. Ela disse que se o meu filho nascesse com alguma deficiência, a culpa seria minha.

Na época, eu fiquei arrasada. Continuei não tomando as vitaminas porque eu realmente não enxergava essa necessidade e não acreditava naquilo – os exames continuavam perfeitos ao longo da gestação… Mas eu fiquei arrasada.

O Y sabe o quanto eu chorei por causa disso.

Hoje eu percebo que definitivamente, se o meu filho nascesse com alguma deficiência, provavelmente a responsabilidade seria minha. Aqueles genes que o Zion carrega, foram todos construídos pelo meu corpo, por mim. Nem se eu tivesse tomado todas as vitaminas do mundo, seria possível me isentar dessa responsabilidade.

Sabe Dr. Norman, eu tenho reparado que responsabilidade não é culpa. E essas duas coisas são infinitamente distintas… A diferença entre elas é, certamente, bastante sutil; mas elas são bem diferentes.

A coisa foi sempre bastante atordoada em Brasília. Não me sinto à vontade entrando em detalhes na minha relação com o Y, Doutor, mas digamos que ela não ia nada bem. Resolvi ficar em Brasília, durante a gestação, justamente porque eu acreditava que o Y tinha o direito de participar da mesma. Eu acreditava, na época, que a responsabilidade dessa relação Y/XY dependia, única e exclusivamente, do meu posicionamento. Não só geográfico.

Hoje percebo que nós – mães, principalmente as solteiras – estamos tão enganadas quanto à essa conduta. Mas um outro dia eu explico melhor o que eu penso à respeito desse assunto.

De qualquer maneira, foram muitas idas e vindas.

E isso definitivamente não facilitava em nada a minha gestação. Para nenhum dos dois.

Até que me separei e fui montar meu próprio apertamento… Sim, um verdadeiro apertamento aquela kitnet de 36m² que eu arrumei para morar. Mas eu adorava aquele lugar. Tinha sido o primeiro local que eu havia visitado quando eu cheguei em Brasília pela primeira vez. Engraçado como a vida dá voltas… Era um conjunto com 1000 kitnets e era muito melhor do que o apartamento anterior em que as janelas davam para a parede. Coisa estranha isso que faziam em Brasília.

Um pouco depois nós voltamos e ficamos morando juntos por ali mesmo, onde o Zion, alguns meses depois, nasceria.

Veja bem Doutor, logo que eu descobri a gravidez, eu já me posicionara com relação ao parto. O Zion nasceria em casa.

Já falei sobre como eu tinha pavor de hospitais né?!

Além do que, eu conhecia inúmeras mulheres em Florianópolis, que haviam tido o seu parto domiciliar, de forma natural; e me lembro de sempre reparar em como as crianças que haviam nascido daquela maneira eram calmas e não muito ansiosas. Não sei exatamente o quanto isso tem a ver com a via e local de parto, ou com a proposta de maternidade que uma mãe que faz essa escolha, às vezes representa.

Mas o que mais me chamava a atenção com relação à essa possibilidade era a capacidade que uma mulher tem de parir. Sim, de parir Doutor.

Eu sempre me questionei por que tínhamos de ser internadas em hospitais para fazer algo que o nosso corpo, já estava predestinado, por natureza, a fazer. Parir, na minha cabeça maluca, é algo fisiológico. E assim como tudo o que é fisiológico em nosso corpo, não existe a menor necessidade de ensiná-lo a fazer correto?! Você entende onde eu quero chegar Doutor?

Eu queria vivenciar o meu corpo em sua maior sabedoria; a do parto.

E queria, como qualquer mulher que eu conheço, que esse momento fosse único.

Mas convenhamos Doutor Norman, a medicina atual não está lá muito preocupada em escutar o que nós, reles mortais, temos a dizer sobre o nosso próprio corpo não é? E também, não quer muito saber de se basear em evidências. Sinceramente, até hoje não consegui entender o que a medicina quer, afinal.

Sempre tenho como exemplo uma cirurgia que fiz no nariz.

Não me lembro detalhes do dia da cirurgia, mas me lembro de quando acordei, deitada em uma maca sem conseguir abrir os olhos. A sala estava lotada de pessoas gritando de dor, reclamando e chamando as enfermeiras. Não sei onde eu estava, mas devia ser algum tipo de pós operatório. Perdi as contas de quantas vezes chamei a enfermeira e disse que eu já estava recuperada, que me sentia bem e que gostaria de ir embora. O clima daquela sala estava bastante tenso e sem conseguir respirar ou abrir os olhos, tudo parecia pior.

Junte a isso, uma certa aversão que eu já carregava a hospital.

A enfermeira vinha, checava a minha pressão e dizia “Sua pressão está boa, por que você não abre os olhos?” eu respondia “Não sei, arde muito, não consigo abrir…” e ela saia andando, dizendo que era normal, que era efeito da anestesia. Ela passava de novo e eu a segurava “Moça, não é da anestesia, eu já tomei essa anestesia antes… Eu não consigo abrir os olhos mas já estou acordada faz muito tempo… Já ouvi você checar todo mundo aqui…” ela saia de novo e dizia que então eu ia ter que esperar um médico chegar para explicar aquilo para ele, mas que ele só viria a tarde.

Obviamente, minutos depois eu estava surtando dentro da sala, gritando e chamando por minha mãe.

A bagunça foi tanta que eles mandaram buscá-la.

Me colocaram em uma cadeira de rodas e me levaram para uma salinha para conversar com ela, afinal, eu ainda não conseguia abrir os olhos. Aos prantos, pedi que ela fizesse alguma coisa e me tirasse dali, pois ninguém me escutava. Minha mãe, mais conhecida por aquela que consegue até atestado de óbito pra gente viva, deu seu jeito e conseguiu um médico que viesse me ver e constatar que eles haviam esquecido o meu olho aberto durante toda a cirurgia e agora estava ressecado ao extremo.

Não era por conta da anestesia.

Assim, ele me deu alta e eu fui pra casa, onde fiquei mais dois dias com o nariz e os olhos tampados. Eu tive que pingar vários colírios no olho, por conta de uma cirurgia no nariz.

O hospital que eu estava era particular.

É lógico que eu sou o tipo de paciente mais complicado do mundo – odeio hospital e digo com tranquilidade que também odeio alguns tipos de profissionais da saúde.

Mas esse ocorrido, definitivamente influenciou na minha escolha por um parto domiciliar planejado.

Eu queria ser ouvida durante a minha gestação e parto.

E eu fui. E muito.

Não foi difícil explicar a minha decisão para o Y, que não conhecia nada à respeito do parto em casa – como qualquer um que não sabe sobre o assunto, ficou assustado no início – mas bastaram algumas leituras para que ficasse convencido e acabasse virando também, um militante do parto domiciliar planejado.

Fiz algumas pesquisas e logo encontrei a minha parteira.

Fazíamos consultas com a mesma frequência do meu pré natal no posto de saúde. A diferença é que a consulta com a parteira levava 1h, 1h30min… Já no postinho, esse era apenas o tempo da espera, sentada no banco gelado, de pedra. A consulta em si, não durava sequer, 10min. Ninguém nunca falava nada. Ninguém tirava dúvida nenhuma. Definitivamente não havia nenhum conforto. Em nenhum sentido.

Nas consultas com as parteiras, nós nos sentíamos realizados. A gente ria junto, se aproximava. Todos nós. Escutávamos o coração do bebê, o cordão umbilical. Nos conhecíamos.

Minha parteira dizia que tínhamos que criar uma relação tão próxima, que em apenas um olhar, ela conseguiria decifrar o que eu estaria sentindo na hora do parto.

Ela me falou isso no primeiro dia que eu conversei com ela. Eu não acreditei.

Hoje eu tenho certeza que só ela, além de mim – e agora você Doutor, sabia o que realmente passava pela minha cabeça.

E ela nunca precisou me falar.

Nossa Dr. Norman, a consulta hoje rendeu hein?!

Amanhã, com certeza, vai ser difícil para mim… Nada, além do meu filho, me emociona tanto quanto o meu parto.

Boa noite Doutor.

Grávida de 5 meses – Aponta a barriga e vai, coração não para.

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