Sessão #4 – O Parto (Fase Latente)

Olá Doutor Norman, como vai?

Eu estava bastante ansiosa pela consulta de hoje, cheguei a sonhar com ela, acredita?!

Faz um ano que estou gestando a ideia de contar em alto e bom tom, a vivência do meu parto em detalhes… Comecei essas consultas, em partes porque finalmente me sentia pronta para esse “nascimento”.

Você será o primeiro a escutar a experiência completa… E com certeza, contá-la, será um parto para mim!

Eu tenho a impressão que a vida se divide em momentos, em fases. A coisa caminha mais ou menos como um jogo de video game – a cada grande troca de fases, é preciso enfrentar um chefão.

As vezes, você completa uma quantidade de conquistas, acaba com alguns chefões e troca de mapa – para começar de novo.

Engravidar, foi uma das trocas de mapas mais importantes da minha vida. Se não, a mais. Descobrir a gravidez e aceitá-la, com certeza foi o meu primeiro desafio. Passei por diversas fases de adaptação, tanto com relação à gestação, quanto com relação ao casamento (eu também não era muito adepta à essa ideia).

O parto, definitivamente, foi o meu chefão.

Doutor, eu trouxe aqui uma frase, de uma obstetriz muito conhecida, chamada Ana Cristina Duarte, que eu li na página pessoal da minha parteira, cerca de dois meses antes do meu parto acontecer, e eu acho que pode te ajudar a me entender…

Ela diz assim:

“O parto não dói só de contração. No parto não parimos apenas a criança. Parimos tensões, tristezas, repressões, raivas, abandonos, traumas, histórias. Isso explica em parte porque é tão fácil para algumas e tão intenso para outras. Seu eu pudesse dar um conselho para lidar com as contrações seria: tente parir suas dores antes do parto do seu bebê.”

Para mim, nada resume tão bem o parto quanto essa frase. Óbvio que o meu caso foi o intenso. Eu sempre deixo tudo para última hora – com as minhas questões emocionais não seria diferente, não é mesmo?!

Você tem certeza que quer ouvir essa história Dr. Norman? Por que assim, eu já posso adiantar e garantir que ela não vai usar avental, não será limpinha e principalmente, não será silenciosa…

Eu já estava com 41 semanas. Chorava praticamente todos os dias. Meu corpo estava completamente inchado, eu não conseguia dormir, estava mau humorada.

Sentia um calor insuportável nos pés, chegava a acordar diversas vezes no meio da noite por causa disso. Sentia fisgadas intensas na virilha no final do dia. Com o cansaço, a minha barriga enrijecia, e não era nada confortável.

O Zion mexia mais do que peixe fora d’agua… Nem parecia que ele estava todo apertado lá dentro.

Ele tinha soluço todos os dias as 5h da manhã.

Todos os dias.

E eu acordava com aqueles pulinhos que a minha barriga dava no meio da noite… Sim, bebês têm soluço, mesmo dentro da barriga. Faz parte do aprendizado da respiração.

Dizer que eu já não entrava em nenhuma roupa parece um detalhe sórdido nesse momento. Acordar milhões de vezes no meio da noite para fazer xixi, também.

Não havia o menor sinal de parto. Não tinha perdido o tampão, não sentia cólicas, dores nas costas. Nada. Não fiz nenhum exame de toque, primeiro porque perdi as minhas últimas consultas no postinho (mas acho que elas não iriam fazer de qualquer maneira) e segundo, porque simplesmente não há necessidade de um exame de toque se você não está em trabalho de parto.

Pensava todos os dias em desistir. Chorava e dizia para o Y, para as minhas parteiras e para a minha mãe “se não nascer até a semana que vem, eu vou tirar, eu não aguento mais”. Mais uma semana se passava e eu dizia a mesma coisa. Eu já havia previsto, no início da gestação, a minha impaciência – avisara à todos que não me deixassem optar por um desnecesárea. Eu sabia que ao sentir dor, ansiedade, medo; eu provavelmente recorreria, com alguma desculpa esfarrapada, à essa cirurgia.

Eu não tenho nada contra à cesárea Doutor… Acredito fielmente que a mulher deve escolher a sua via de parto, conforme a sua necessidade – só acho que ela deve se informar bastante antes de tomar esse tipo de decisão. Eu, no caso, sabia que me arrependeria se optasse por uma cesárea sem necessidade. Eu queria muito vivenciar a experiência do parto normal. Muito mesmo. Por isso, pedi as pessoas mais próximas que não me deixassem fraquejar. Expliquei que eu me arrependeria.

Eu precisava daquele parto. Eu precisava provar para mim que eu conseguia.

Pedia, em todos os encontros com a parteira, que ela interferisse o mínimo possível… Eu dizia “Eu vi um vídeo no YouTube, que a mulher fica sozinha na banheira e pega ela mesma o bebê, será que o meu parto pode ser assim?”

Ela ria e dizia que podia ser como eu quisesse. E aquilo era a glória para mim – fazer o meu próprio parto.

Até porque, eu só aceitaria o não, se ele fosse da natureza em pessoa. Eu estava decidida.

Mas eu estava cansada – e todo mundo ficava me dizendo “E aí? Esse bebê não vai nascer?” E esse, definitivamente, era o comentário mais tranquilo que eu escutava porque, geralmente, as pessoas em sua desinformação, vinham com histórias de uma amiga da prima da vizinha da fulana, que ficou esperando o parto normal e quando chegou no hospital o bebê tinha morrido.

Porque essa é uma ótima história para se contar à uma gestante; principalmente se ela tiver passado das 39 semanas.

Por sorte, ninguém me deixou ir para o hospital… As minhas parteiras riam e diziam que era assim mesmo, “primigestas levam mais tempo”.

Mas eu no fundo sabia que esperaria quanto tempo fosse necessário – eu sempre fui a ‘Rainha do Drama’.

A essa altura, eu já era atendida por duas parteiras – a que me acompanhou e a sua parceira.

Doutor, eu me lembro como se fosse hoje, quando senti o primeiro sinal de parto à vista. Era um domingo, eu estava deitada na cama.

“Y, estou sentindo uma cólica que eu não sinto tem 9 meses… Ou eu vou ficar menstruada, ou o Zion está a caminho”. Era de manhã.

Quando a tarde chegou, veio também uma dor nas costas muito intensa. Meu intestino soltou.

Eu sabia que esse era um sinal muito certeiro de que baby Zion estava à caminho.

A natureza é simplesmente perfeita.

Era dia de jogo da final da Copa das Confederações e decidimos não ir encontrar com os amigos por conta desses sinais. Eu tinha medo de não conseguir chegar em casa a tempo.

Fui dormir.

Segunda de manhã, quando acordei, a cólica continuava. Resolvi mandar uma mensagem para a minha parteira “Estou com uma cólica desde ontem e comecei a ter uma espécie de corrimento, será que é o meu tampão?”… Era meio dia.

Eu e Y decidimos que aquele era um bom momento para comprar tudo o que faltava para o parto, para o Zion e aproveitar para fazer um estoque de comida para as próximas semanas.

Eu estava com fome e confesso que fomos ao Mc Donalds. Eu comi Wrap de frango com molho Barbecue. O relógio marcava 15h.

Quando me sentei na mesa, comecei a reparar que aquela cólica, vinha em ondas. Por curiosidade, resolvi marcar o tempo. 6 minutos. Elas intensificavam a cada exatos 6 minutos.

Nosso corpo é mesmo uma máquina.

Levantei e fui ao banheiro. Ao passar o papel higiênico, junto ao corrimento havia “fiozinhos” de sangue. “É, definitivamente é o meu tampão!” pensei.

Imediatamente liguei para a parteira, eu não conseguia conter a minha felicidade. Eu sabia que tudo aquilo era sinal de trabalho de parto muito, muito próximo. Ela disse “É… Tá chegando Tati… Pelo que eu vejo você está bem empolgada não é? Olha, vai para sua casa, descansa. Sua noite, provavelmente, vai ser longa”.

Ela pediu também, que eu continuasse acompanhando o tempo das contrações e que eu ligasse para ela a cada duas horas ou quando eu sentisse cerca de três, dessas grandes cólicas, dentro de 10 minutos.

Mas eu não conseguia ir para casa Doutor. Como você já deve ter reparado, quando eu fico frenética, eu fico frenética – não tem botão de desliga…

Eu tinha medo de ir para casa, sem que as contrações tivessem engatado, e “matar” o trabalho de parto com a minha ansiedade. Achava melhor que eu ficasse distraída.

Digo de antemão, que eu devia ter escutado a parteira. Parir é extremamente cansativo.

De qualquer forma, seguimos comprando tudo que faltava – centro da cidade, shopping e finalmente supermercado, em que eu comecei precisar me sentar a cada contração. A dor passou para o seu primeiro nível.

Chegamos em casa ás 23h.

Liguei para a parteira, com uma contração a cada 4 ou 5 minutos. Eu conseguia conversar com ela enquanto contraía, porém, tinha de ficar sentada.

Ela me aconselhou que tomasse um banho quente e tentasse dormir. Me lembro dela dizer “Você bateu perna o dia inteiro, precisa descansar!”. Também me lembro de pensar muito nessa frase durante o trabalho de parto, esgotada.

Eu pedi que ela viesse me ver, para que eu me sentisse mais segura. A outra parteira, morava bem perto da minha casa e chegou rapidinho. Ela já subiu com as coisas (bola de pilates, mala e um monte de apetrechos que eu não faço a menor ideia mas sei que elas levaram). Fiz o meu primeiro exame de toque da gestação inteira. Dois dedos.

Ela me disse que ainda tinha um tempo pela frente e que ela ia pra casa para não ficar fazendo pressão “Eu já cronometrei, chego aqui em 8 minutos”.

Eu fiquei tranquila, queria terminar de me maquiar. Eu tinha feito as unhas naquela manhã. Uma vez eu ouvi de uma conhecida que parto normal era ruim porque não dava para ficar bonita na hora do parto. Queria provar que ela estava errada. Pelas fotos, fica claro que eu não consegui.

Eu tentei dormir, mas a dor começou a ficar mais intensa. Agora, ela me fazia escorrer algumas lágrimas dos olhos. Nenhuma posição era confortável e eu já não queria mais conversa no momento das contrações; mas obviamente, eu ainda conseguia fazer piada nos entremeios: “Nossa Y, olha essa foto – se eu já tô com a cara da Emily Rose no começo do trabalho de parto, vou ficar a cara do Exorcista no final”. Meu senso de humor é completamente descabido.

01h30min e eu estendi o celular para o Y, tudo que eu consegui dizer foi “Liga para a parteira”. Ele me perguntou o que dizer – acho que ele também estava nervoso.

Ele começou com um blá blá blá pelo telefone que na hora da contração me despertou um tapa na mesa e um “Fala para ela vir! AGORA!”.

Ela entendeu.

Doutor Norman, vou ter que ir buscar meu filho na creche agora…

Vida de mãe é assim – a gente conversa, conta, dorme, faz tudo pela metade e já é logo interrompido por um tapa da realidade dizendo “eu quero a minha mamadeira, e quero agora”.

Continuamos amanhã?

Deixe um comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s