Sessão #5 – O Parto (Fase Ativa)

Eu sei Doutor Norman, faltei a todas as sessões da semana passada. Ainda não sei dizer se foi por toda emoção que vivenciei aqui, revivendo os momentos passados, se foi por um projeto novo que estou tentando tirar do papel ou se foi, mais uma vez, por mera falta de disciplina. Tenho a impressão de que foi tudo isso junto e misturado.

Sei que parei na metade do meu parto – ou melhor, no começo – mas achei que conseguiria vir aqui e contar tudo o que aconteceu, sem me “envolver”… A verdade é que foi tão emocionante para mim, que ainda fico muito comovida quando conto um pouco do nascimento do Zion, e de quebra do meu renascimento. Porque na verdade, foi exatamente isso que aconteceu naquele dia.

Como eu ia dizendo na última consulta, por volta da 1h da manhã, as minhas contrações começaram a ficar mais ritmadas e mais doloridas; comecei a perder o bom humor na presença delas, mas ainda conseguia conversar e rir entre uma e outra.

O parto costuma ter 4 fases e acredito que no meu parto, elas tenham ficado extremamente perceptíveis (acho que não sou muito boa em disfarçar as minhas emoções).

A primeira fase do parto, é a Fase Latente. É justamente a fase que eu contei na consulta passada. É a fase em que as contrações começam a ritmar, ainda que com um certo espaço de tempo entre elas.

Essas pequenas contrações ajudam o bebê a se posicionar dentro do útero para o nascimento e empurram a cabeça dele sobre o colo do útero, produzindo assim, a dilatação. As dores são suportáveis e ainda não é hora de ir para a maternidade ou no meu caso, para as parteiras chegarem em casa; e muitas mulheres relatam, que assim como eu, tiveram um “pico de energia” durante essa fase – foram tomadas por uma vontade súbita de fazer um monte de coisas e até mesmo “preparar o ninho”. Comigo não foi diferente, mas sabe Doutor, ainda acho que eu devia ter escutado a minha parteira e economizado essa energia para as fases seguintes.

Quando a parteira dourada chegou (vou chamar ela assim devido a linda cor dos seus cabelos e por sua preciosidade – ela trabalha em parceria com a minha parteira do coração, que foi a que nos acompanhou em todos os encontros e com quem eu criei um vínculo que mesmo ela não sabendo, me emociona até hoje; e também participou de alguns dos encontros para criarmos intimidade, e de fato, criamos, mesmo que em menor tempo) eu já estava um pouco nervosa pois a dor já me incomodava e a ansiedade também já tomava conta.

Fiquei na bola de pilates enquanto ela e o Y montavam o acampamento: 4 bocas de fogão acesas esquentando as panelas de água, uma mangueira que saía do chuveiro e começava a preencher a piscininha inflável que eles tinham acabado de encher. Um lençol-fralda foi colocado por baixo de um lençol velho na cama de casal e lençol velho foi colocado na cama de solteiro que chamávamos de sofá. Ela deixou suas coisas em baixo da mesa de plástico e prepararam diversas fraldas de pano. Enquanto isso a piscina enchia, as dores cresciam e a ansiedade aumentava. O Gato circulava pelo espaço, a mala da maternidade ficava intacta ao lado do sofá. Quem passava pela porta daquela kitnet de 36m², sem nenhuma divisória, jamais imaginaria que ali, em um daqueles “apertamentos” naquele conjunto de 1000, estava prestes a nascer uma família inteira.

Eu queria dizer que não senti dor. Mas acontece que o parto se trata justamente de sentir. Não só dor – aliás, muitas mulheres não sentem tanta – pois a dor é só um detalhe perto de tudo se sente em um parto.

Quando eu era adolescente, eu tinha um amigo que admiro muito, que costumava dizer “Que os sentimentos nos perfurem, sempre”. Via aquilo como uma espécie de ‘Namastê’ e nunca me esqueci da tal frase. Sempre pensava no que ela falava e em como no final das contas a vida se resume justamente a ela: a experiência única e exclusiva de sentir. Tudo.

Se a vida se resume a sentir e o parto se resume ao nascimento de uma vida; como não esperar sentir em um parto?

Eu senti muita coisa no meu, mas como eu sempre digo, meu parto não foi bonito; foi emocionante.

E ele começou doendo.

Eu sentava e doía, eu levantava e doía, eu deitava e doía. Comecei a chorar sem parar conforme as dores iam aumentando. Ainda dava para conversar entre uma contração e outra, mas quando elas vinham, era impossível não virar os olhos. Pedi para entrar na banheira e fizemos um novo exame de toque. Ainda estava com 5 centímetros. Eu mal tinha chegado na metade do trabalho de parto.

Elas me diziam para tentar esperar um pouco antes de entrar na banheira. Elas tinham medo que eu relaxasse demais e isso “assustasse” o trabalho de parto. Ainda era muito cedo e as contrações não estavam completamente engatadas. Mas eu queria entrar de qualquer jeito, eu só conseguia pensar em estar naquela água quentinha. Minha parteira do coração tentava me acalentar com massagens e sugestões de novas posições. Elas diziam para que eu tentasse descansar entre uma contração e outra – mas era impossível para mim relaxar e nada adiantava, eu só chorava.

Sempre detestei ser tocada em momentos de dor, tanto física quanto emocional – no meu parto não havia de ser diferente. Eu não queria massagem, eu não queria conversa, eu não queria ser tocada.

Eu queria apenas nadar.

Pouco tempo depois, pedi novamente para entrar na banheira. Imagino que já tínhamos chegado ás 3h da madrugada.

Dessa vez elas, ainda que um pouco ressabiadas, apoiaram. Entrei e saí diversas vezes, conforme a minha vontade. Mas a cada saída, um novo arrependimento e eu rapidamente voltava para água quente. Era impressionante o alívio que eu sentia dentro dela.

Fiquei a maior parte do tempo deitada dentro da banheira, de barriga para cima, nadando com as pernas de um lado para o outro. Aquele movimento parecia amenizar as dores. Pelo menos, é assim que eu me lembro.

Chorava durante as contrações. Ás vezes conseguia conversar entre elas, ás vezes não.

O tempo parecia não passar. Eu perguntava toda hora para a parteira “falta muito?” e ela dizia que não tinha como saber. Devo ter sido a parturiente mais chata que ela já teve.

De repente, as 5h da manhã, entre um silêncio e outro do escuro da sala (se é que kitnet tem sala), ouvi um “ploc” e senti o líquido nas pernas, mesmo envolvida pela água da banheira. Acho que estava tão abduzida que consegui ver o líquido.

– Minha bolsa estourou – eu disse.

– Você tem certeza?

– Sim… Eu ouvi.

Como se fosse possível escutar a bolsa romper dentro da água não é Doutor Norman?!

Mas eu juro para você que eu escutei. E depois senti. E vi.

A parteira dourada verificou a água e passou as informações em voz alta dizendo que estava normal, o líquido era claro e tal. Eu imediatamente perguntei: “Você tem certeza que está claro, porque eu consegui ver…” e ela confirmou que ele era transparente.

Como eu disse Doutor, a parturiente mais chata do planeta e a maior Rainha do Drama que eu conheço.

Até amanhã Dr. Norman Bates.

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