Sessão #6.1 – O Parto (Fase de Transição)

Olá Doutor… Queria dizer que estou muito feliz em ter voltado com as consultas… Você não tem ideia a falta que me fez na semana passada!
Acho que sou muito faladeira e foi muito bom vir aqui desabafar com você…

Bom, ontem fomos até a rotura da minha bolsa certo?! Então, eu estava na minha Fase Ativa do trabalho de parto. Como eu contei, essa é a fase em que as contrações ficam mais fortes e ritmadas, o que acaba aumentando a dor…
Geralmente uma doula (ou a própria parteira) pode ajudar muito nessa fase, com alternativas para o alívio da dor. Como você pode ver, eu não consegui usufruir muito desse “artificio”. Eu sou meio bicho do mato nesse sentido e quando estou com muita dor ou medo, eu meio que mordo as pessoas que tentam se aproximar. É terrível, preciso urgentemente melhorar isso.
Essa é uma fase muito importante para o bebê pois é quando acontece o amadurecimento de seus pulmões, então é bem difícil estipular o seu tempo de duração. Só o bebê pode dizer se “falta muito”. O meu, eu considero ter sido relativamente curto por ser o meu primeiro parto; mas para mim, essa fase pareceu uma eternidade.

Agora, o que marca o final dessa fase, não é o rompimento da bolsa, mas sim alguns outros aspectos que acabaram chegando mais rápido depois da rotura.

Assim que eu avisei as parteiras, a minha parteira do coração me contou sobre algo que mudaria completamente o caráter das minhas próximas contrações, porque assim que a minha bolsa rompeu, eu mais uma vez, perguntei quanto tempo faltava e ela me respondeu “Olha, eu tenho duas coisas para te contar, uma boa e uma não tão boa… A boa é que com o rompimento da bolsa, a dilatação vai ser muito mais rápida, afinal de contas, antes, era uma “bolsa de líquido” que estava empurrando o colo do útero; agora, vai ser a cabeça do bebê…” Me lembro perfeitamente dela exemplificando isso com as mãos e da alegria que eu senti por saber que estávamos próximos.
“A notícia não tão boa, é que vai doer muito mais”
Mentira. Na verdade ela não me disse assim (não lembro perfeitamente quais foram as palavras que ela usou, mas foi isso que eu entendi enquanto eu quase caía para trás imaginando o que poderia ser mais dolorido do que aquilo). Ela me explicou que a dor da cabeça empurrando o colo do útero, por não ter a lubrificação da bolsa, é muito mais seca e incômoda. Ela também exemplificou isso com as mãos e assim que ela terminou de falar eu fui “golpeada” pela contração seguinte.
Sim, golpeada.
Porque ela tinha razão, e como tinha razão.
Fiquei feliz por ela ter me avisado porque se não, teria sido, quase que literalmente, um soco no estômago.
A contração era muito mais intensa e sim, muito mais seca.
A dor, era muito mais forte. Forte no sentido de intenso mesmo, de algo que eu nunca tinha sentido antes. Uma cólica que conseguia praticamente me dizer o formato da cabeça do meu bebê. Eu não me sentia confortável em mais nenhuma posição, todas doíam. Eu deitava, sentava, virava e nada resolvia.
As contrações vêm em ondas.
Eu dizia “Não, não, não, não” quando eu começava a perceber que a próxima contração estava por vir. Assim como eu disse quando os tracinhos, do exame de gravidez da farmácia, começaram a aparecer, naquele banheiro fedido do supermercado, 41 semanas antes daquilo.
E essa memória, me jogou aos prantos, direto para dentro da Fase de Transição.

Doutor, tem muitas coisas sobre o parto que as pessoas desconhecem. E a Fase de Transição é uma delas.
Se a Fase Ativa, leva as mulheres à uma cesárea por conta da ansiedade; a Fase de Transição as leva à essa cirurgia por meio do desespero. E é exatamente por isso, que hoje eu acredito que o trabalho da doula é fundamental não só no trabalho de parto, mas também, no acompanhamento da gestação. No trabalho de parto, a doula pode amenizar as dores físicas da Fase Ativa, mas eu acredito que seja principalmente na gestação, que ela vai poder preparar essa mulher para as dores emocionais da Fase de Transição.
No meu caso, eu tive esse apoio através da minha parteira do coração.

Eu falo aqui das mulheres que estão fora do padrão que a sociedade impõe. Das mulheres que sentiram dificuldades físicas e emocionais na gestação por seus mais variados motivos e tiveram a coragem ou a ajuda necessária para admitirem que a gravidez nem sempre é a Disneylandia.
Porque assim Doutor, pelo que eu percebo, existem basicamente três tipos de mulheres grávidas (de uma forma geral): A primeira eu acredito fielmente que seja a mais rara mas acho que existe – é aquela mulher que se sente completamente maravilhada 100% do tempo – ela nunca, nunca, nunca titubeia. Ela sonhou a vida inteira em ser mãe. Não sente dor física ou emocional, está completamente resolvida em todos os aspectos, tem total apoio familiar, dinheiro na carteira e escolheu o momento “certo” de engravidar. Organizou a sua carreira, a sua casa e a sua felicidade.
É a mulher que a gente batalha a vida inteira para ser.
Só que ás vezes, a gente engravida antes e aí vem o segundo tipo de grávida, as mulheres que assim como eu, estão fora desse padrão de “mulher grávida e completamente feliz” que a sociedade muitas vezes impõe que você seja.
Nem todas as mulheres almejam uma gravidez. Nem todas se vêm como mães de família em 10 ou 20 anos.
Nem todos os dias está feliz com a gestação, muitas vezes está confusa. Ela se questiona se está no caminho certo, sente dificuldade física, emocional, financeira; se preocupa com o seu futuro profissional. Não gosta de estrias, de engordar, de passar mal. Muitas vezes não tem apoio do parceiro e as vezes nem da família. As vezes, essa mulher carrega traumas, emoções e experiências mal resolvidas.
Geralmente não estava esperando por um bebê, não estava casada ou completamente comprometida com o parceiro.
Não estava preparada para uma gestação.
Essa mulher, também quer muito ser a melhor mãe do mundo para o seu bebê, mas ela não se engana com relação as suas dificuldades. Ela não as nega por imposições sociais. E é justamente o que a diferencia da terceira mulher.
A mulher Mickey Mouse.
Sabe Doutor, aquela mulher que sorri acima de tudo como se nada a incomodasse, mas no fundo esconde grandes descontentamentos e finge que eles não existem.
É justamente com essas que eu mais me preocupo, porque não dá para fingir na hora do parto. Não dá pra fingir que é mãe. Não dá pra fingir a felicidade. Pelo menos não pra você mesmo.

Veja bem Doutor, eu tive uma gravidez inesperada, um parto emocionalmente difícil, mas não tive o tão comum e esperado baby blues. Sabe, aquele descontentamento que algumas mulheres sentem algumas semanas pós parto?
Fico sempre me perguntando o que leva algumas mulheres tão “Mickey Mouse”, que vivenciaram uma gestação tão Disneylandia, acabarem derrotadas por baby blues. Lógico que não acontece com todas.
Existe toda uma explicação científica para isso, baseada nas alterações hormonais e tal, mas convenhamos, as alterações hormonais não acontecem em todas as gestantes?
É nessa hora, que eu acredito que a passagem pela Fase de Transição, faz total diferença na saúde emocional da mulher, principalmente no pós parto.
Porque, o que quer que seja que ela não tenha enfrentado emocionalmente durante a gestação, ela vai enfrentar ali.
E eu digo mais, “se bem instrumentada” durante o seu pré natal, ela provavelmente vai vencer.

Mas isso é apenas um devaneio, deitada aqui nesse divã, conversando com você né Doutor Norman Bates, mada do que eu estou dizendo é fundamentado; é apenas a minha opinião.
É só mais uma das minhas inúmeras teorias malucas.

Mas enfim, a Fase de Transição geralmente começa com 7 ou 8 centímetros de dilatação e vai até a dilatação total. Ela é marcada justamente pelo início de uma espécie de transe e é quando a gente costuma dizer que a mulher foi para a “partolândia”. E eu fui Doutor, e como fui.

Me lembro perfeitamente de naquele emaranhado de dor e desencontro físico, onde nenhuma posição ficava boa e eu repetia constantemente “não, não, não” pra dentro de mim ao enxergar as contrações vindo, no meu limite do medo e da razão; eu começar a ser espancada pelo meu consciente, em sua luta para não ser desligado; em sua maior tentativa para não me deixar ir para a “partolândia” cumprir o que o meu corpo fora designado por natureza a fazer, com coisas como “Você vai ser uma péssima mãe, lembra como disse ‘nao, não, não’ naquele banheiro? Percebe como está dizendo de novo? Você vai ser uma péssima mãe, não estava preparada para isso naquele banheiro e continua não estando, 9 meses depois, aqui nessa banheira!”.
O nosso lado racional pode ser muito severo quando quer se manter ativo.
E o meu lutou, e lutou, e lutou, contra o meu inconsciente, contra o meu irracional, contra o meu instinto de parir.
A minha parteira do coração percebeu o entrave que eu enfrentava – o meu medo não era da morte, nunca fora. Eu não tinha medo de morrer, como todo mundo sempre me perguntava. Eu tinha medo era de não ser uma boa mãe, pois eu não havia passado a vida inteira me preparando para aquilo, como grande parte das mulheres. Como a sociedade sempre disse que eu deveria fazer.
Eu tinha me preparado para viajar o mundo em minha solidão. Era isso que eu sabia fazer.
Eu não tinha desejado desde os meus 8 anos ser mãe, ter uma família.
Eu não tinha me dedicado a observar e aprender como ser uma boa mãe. E me culpava por não ter me preparado, pela vida inteira, para aquele momento.
O que eu não sabia, é que o meu corpo tinha feito isso por mim. Desde sempre.

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