Sessão #6.2 – O Parto (Fase de Transição)

Então Doutor, a minha parteira do coração disse a palavra mágica que eu nunca vou me esquecer, ela disse, sentada na cadeira ao lado da banheira, na penumbra da sala: “Aceita, para de enfrentar e aceita”.
Lembra como eu disse que ela me entenderia por um olhar?
Foi nesse momento que eu tive certeza.

E com os “eu nunca vou conseguir”, “eu não vou suportar essa dor”, “eu não sirvo pra isso”, “eu não deveria estar aqui” que sucederam aquela fala, eu entendi.
Entendi que a natureza havia preparado o meu corpo para aquilo.
Não nos meus 27 anos de vida, mas sim, naqueles anos e anos de procriação da espécie.
Eu sei Doutor, que eu pareço maluca por ter essa linha de raciocínio meio insana, mas afinal, porque mais eu estaria aqui?!
Enfim, naquele momento eu entendi que o meu corpo sabia exatamente o que ele estava fazendo e que se eu estava grávida, se eu estava parindo um filho, era porque eu estava preparada para aquilo. O meu corpo estava me dizendo que eu estava preparada para aquilo. Eu só precisava deixar ele fazer o que eu talvez não tivesse me preparado conscientemente para fazer, mas ele, havia feito isso todos os dias de sua existência.
A natureza é muito sábia.
E é muito perfeita.
E tem a procriação da espécie, como uma das suas maiores ferramentas para sua própria existência.
Sua mágica independe do meu preparo racional.
Não importava que durante toda a minha vida eu não tivesse pensado nem uma única vez em ser mãe. Porque o meu corpo pensava nisso durante todos os seus dias.
É isso que ele faz fisicamente: se prepara, mês após mês, para uma gestação.
Eu podia deixar que ele tomasse o controle. Eu podia deixar que ele me ensinasse, que ele me dissesse o que fazer.
Quem tem a procriação da espécie como ordem de vida, jamais me deixaria ser uma péssima mãe.
Eu tinha que aceitar que aquela vida onde eu tinha o “controle” de tudo tinha acabado. Que aquela mulher que não queria ser mãe, ficara para trás.
Eu tinha mudado completamente a minha vida até aquele momento. Era mais do que óbvio que o que eu mais queria desde que descobri a minha gravidez, era ser mãe. Não importava mais o que eu quis antes. Eu precisava aceitar que aquela outra mulher, se despedia de mim, incessantemente desde o dia que eu engravidei. Eu precisava aceitar a sua ida e deixar que o meu corpo, que tanto havia se preparado para aquele momento, que tanto havia esperado, assumisse o controle.

Eu já sabia de tudo isso antes do parto, mas foi só nesse momento que eu realmente entendi. E senti o que isso significava.

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