Sessão #6.3 – O Parto (Fase de Transição)

Sabe Doutor, quando eu era adolescente, os meus pais cederam ao meu “talento artístico” e deixaram que eu o manifesta-se nas paredes do meu quarto, pintando-o de azul e branco, com pinceladas soltas ao formato de nuvens. Depois de algum tempo, passei a deixar que todos os meus amigos que me visitassem, escrevessem ou desenhassem nas paredes, conforme suas vontades. Então, no ano de 2002, logo após o meu retorno dos Estados Unidos, eu fiz amizade com uma menina – que alguns anos mais tarde me receberia em sua casa em Bauru, durante o início do meu primeiro semestre do curso de Licenciatura em Artes Plásticas da UNESP – e ela, em sua inteligência profundamente adiantada à sua idade, escreveu na parede, logo atrás da porta do meu quarto:
“Somos feitos de nécropole e maternidade: todo dia nasce e morre algo em nós”.

Não caberia em minha mão o número de vezes que fiquei deitada na cama olhando aquela frase e me questionando o que exatamente ela queria dizer. Veja bem, aquela era uma frase um pouco mais complexa do que os “te adoro, beijos” que eu costumava receber; obviamente sua complexidade despertara a minha curiosidade de tal forma, que eu me lembro dela até hoje.
Não era fácil para mim, aos 16 anos, entender a sutil ligação entre a morte e o nascimento.
Ainda não é.
Também me questionava se a menina que a escreveu, compreendia o seu real significado.
Alguns anos depois, tive a certeza que sim.
Algumas crianças carregam sábios adultos dentro de si.

Essa frase é do escritor Ivan Santtana, autor dos livros “Caixa Preta” e “Perda Total”, bastante famosos no universo da aviação por relatarem acidentes aéreos brasileiros.
Todo Comissário de Voo conhece esses livros e consequentemente o seu autor.

Acho profundamente irônico que essa frase me venha a mente quando revisito o meu parto. 11 anos depois consegui compreender perfeitamente o que aquela frase, tão ligada a aviação quanto eu naquele momento, queria dizer. Engraçado como a vida anda em círculos.

Eu sempre digo que o meu parto foi um nascimento e um velório. Naquele dia tanta coisa nasceu junto com o Zion que eu poderia passar dias aqui, listando todos esses nascimentos que eu pari.
Mas para que todos aqueles nascimentos pudessem acontecer, algo em mim havia de morrer.
E assim como pede toda experiência de morte, no meu parto eu enfrentei a negação, a raiva… Eu tentei barganhar, fiquei em depressão e finalmente, a palavrinha mágica, aceitei.
E foi justamente quando eu fiz isso, quando eu aceitei o final daquela etapa da minha vida, quando eu aceitei o início de uma nova forma de me relacionar com o mundo, ou seja, quando eu aceitei a minha própria “morte” – que eu pude renascer em mim. Que eu pude renascer no meu filho.

A Fase de Transição é profundamente marcada por essa briga entre o racional e o irracional. É quando o consciente da mulher precisa ser “desligado” para que o seu inconsciente possa agir e assim deixar o seu instinto aflorar. Porque é na irracionalidade que a “partolândia” fica. É no instinto. É na sabedoria ancestral que o nosso corpo carrega; e que só pode ser acessada través desse desligamento. Mas como tudo que vive, o consciente luta até o fim para se manter ativo. Mas é preciso morrer a mulher, para que nasça a mãe. Afinal Doutor, você conseguiria me apresentar algo mais instintivo do que a maternidade?

Foi já na partolândia que eu comecei a procurar instintivamente por uma posição. Encontrei na de quatro apoios o conforto. Nessa hora o choro começou a cessar dando espaço a respiração ofegante e ao gemido mais sincero de qualquer corpo. E ele crescia, e crescia.

Meu consciente, ás vezes retornava, como últimos suspiros de quem morre.

Em um desses momentos perguntei a parteira do coração, mais uma vez para não perder o costume, quanto tempo faltava. Eu nunca vou esquecer esse momento. “Não sei, me diz você” ela me respondeu. Olhei para ela horrorizada, pois sabia exatamente o que ela queria dizer. Me lembrei de quando pedi um parto sem interferências, quando pedi para que eu mesma pegasse o meu bebê, dentro da banheira.
Me lembrei o que havia me trazido até ali. Me lembrei da eterna vontade que eu tinha de sentir.
Coloquei o dedo no canal de parto e senti o cabelo do Zion. Sua cabeça estava ali, a uma pontinha de dedo de distância. Ela olhou pra mim e perguntou “E aí, quanto falta?”. Senti um sorriso no canto do seu olho como alguém que acaba de cumprir uma missão.
Só posso imaginar a minha cara de espanto, como quem acaba de presenciar um milagre, mostrando para ela a quantidade de dedo que faltava para o Zion descer.

Meses depois durante a palestra de uma parteira, em um curso de doula que fiz, ela comentou que muitas mulheres citam essa experiência como algo excepcional.
Olha Doutor, tudo o que eu tenho à dizer é que todas elas estão com a razão.

Estou muito cansada, podemos continuar amanhã Dr. Norman?
Já deu o horário e acho que eu acabei me estendendo um pouco nessa fase, mas ela foi muito marcante para mim… Não é todo dia que renascemos por inteiro não é mesmo?!

Boa noite Doutor.

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