Sessão #8.2 – O Expulsivo

Não era sobre os tipos de maternidade que eu vinha falar nessa consulta não é Dr. Norman Bates?!
Eu não me esqueci que havia prometido à você que eu falaria do nascimento do Zion nessa consulta.
Me lembro de ter parado em algum lugar próximo ao meu “exame de toque autônomo”.

Eu estava na posição de quatro apoios e a dor era muito forte. Eu já estava muito, muito cansada mesmo. Os meus braços tremiam e apesar daquela ser a posição mais confortável que eu havia encontrado, eu não conseguia mais me manter nela, o cansaço tomava conta. Aqueles momentos de descanso, antes sugeridos pelas minhas parteiras e substituídos pelo passeio ao longo do dia, começavam a fazer a maior falta do mundo.

Olhei pela janela e vi o dia amanhecendo – eu havia perdido a noção do tempo no início da noite e aquele foi o primeiro momento que tive alguma ideia de quanto tempo se passara. Também tive a certeza que o Zion estava para nascer – sentia que ele nasceria logo pela manhã e me lembro perfeitamente de pensar “Que bom, o dia está amanhecendo é sinal que já vai acabar”.

Eu amo o amanhecer. Sou uma mulher da manhã.

Olhei para a minha parteira do coração e disse “Eu não aguento mais, o meu braço está doendo muito!”. Eu suava. Em bicas. E tremia. Meus braços tremiam como se sustentassem um edifício inteiro.
“Porque você não tenta ficar de cócoras, se virar um pouco? Pode ficar mais confortável. Y, pegue aquela cadeira e ajude ela a se apoiar.”
O Y sentou na cadeira junto à banheira e colocou as pernas para dentro da água. Fiquei de cócoras, encostada nele, com meus braços apoiando em suas pernas. Acho que ele também usou os braços para me segurar e acredito que tenha feito bastante força, porque eu estava realmente cansada.
Pelas fotos dá para ver que eu me apoiei muito nele nesse momento do parto. Fisicamente.
Emocionalmente ficamos bastante distantes durante o parto inteiro.
Não fomos aquele casal amoroso como nos vídeos de parto domiciliar do YouTube.
Como eu disse, meu parto não foi bonito, mas foi bastante sincero.
Eu não acho que esse seja o momento de eu me aprofundar na razão desse distanciamento, até porque, eu mesma só fui compreender racionalmente o porque daquele afastamento, meses depois da nossa separação. Mas quando parimos, nossas emoções tomam conta, da forma mais sincera possível. Como comentei antes, não dá para mentir na hora do parto. Mesmo que você sempre minta para você mesma.

De qualquer forma, ao me virar e posicionar de cócoras, mergulhei profundamente no universo da partolândia. Atrás de mim, estava o Y me segurando. Sentada a minha frente, minha parteira do coração e ao meu lado estava a parteira dourada acompanhando atentamente os batimentos cardíacos do Zion.
Pelo menos foi o que disse o Y.
Porque eu sinceramente não me lembro.

Me lembro de olhar para a minha parteira do coração e para a parteira dourada e tentar entender as palavras que saíam de suas bocas. Eu não escutava nada.
Sabe Doutor, quando (antigamente) a fita cassete começava enrolar no gravador e a voz começava a sair de forma bem lenta e grave? Era assim que eu ouvia o que elas diziam.
Eu estava completamente entregue aquele transe.
Já não lutava mais e a dor já não era como antes. Ela já tinha ultrapassado o limite da dor. Aquele limite em que você simplesmente a para de sentir.
Minha parteira do coração, me aconselhara, enquanto eu estava na posição de quatro apoios, a tentar vocalizar. Ao vocalizar, você relaxa a garganta e consequentemente a vagina.
Quando virei de cócoras eu já tinha passado da fase de vocalizar. Eu gritava.
Mas não era um grito comum, da garganta. Era um grito do corpo, do bicho.
Quando a contração vinha, minha barriga mudava de formato, de tão forte que ela era, e o grito saía pela minha boca como se nascesse daquela pressão.
Eu já estava chegando ao término da descida do meu bebê. Nesse momento, a dor da contração já passa, de certa forma, despercebida. Eu sentia mesmo era o cabelo do Zion “raspando” no canal de parto.
Esse “desconforto” é comumente comparado ao sexo sem lubrificação.
Sua cabeça começou a coroar e uma dor completamente diferente se apresentou.

A primeira vez que ouvi a expressão “Cículo de Fogo” foi em uma entrevista da Gisele Bundchen à sua parteira em um programa da TV chamado “Parto pelo Mundo”.
Ela citou essa expressão e eu imediatamente entendi à que ela se referia, mesmo sem saber o seu significado.
Quem passa pela experiência de um parto sem episiotomia, provavelmente se lembra desse momento.
Não haveria descrição melhor para aquela intensa ardência, do que Círculo de Fogo.
Era exatamente o que eu sentia enquanto a cabeça do Zion coroava. A pele esticava e queimava como se existisse ali, ao redor da cabeça dele, um círculo de fogo. Que queimava. E ardia.
Eu dizia “vai rasgar, vai rasgar” e segurava a minha mão, uma com a outra, com força.
No inicio da coroação, eu estava com a mão ali, na cabeça do meu filho. E eu queria tocar. Era esse o meu impulso, o de colocar a mão. Mas agora, ardia além do toque.

Eu sei Doutor, pela sua cara posso perceber que você está sentindo uma grande aflição. Eu também sinto toda vez que eu me lembro.

A parteira dourada dizia que não tinha rasgado, que o meu períneo estava intacto, que era só impressão. Aquela ardência insana me causava um certo desespero – “vai rasgar, vai rasgar” – eu repetia.
Elas tentavam me acalmar… Até que a contração parou e a cabeça do Zion ficou ali, meio a meio.
Eu tremia, mais do que de dor. Estava além de exausta e percebi que não aguentaria a próxima contração. Eu estava muito, mas muito cansada mesmo – sentia como se eu fosse desmaiar. Não conseguia nem verbalizar essa sensação para as minhas parteiras e achei que uma decisão precisava ser tomada.
E na contração seguinte, mesmo sabendo que eu não devia, eu empurrei.

Doutor, o maior causador de lacerações em partos, definitivamente é essa força, fora da contração, para empurrar o bebê para fora. Se você respeita as contrações, o bebê costuma passar sem “rasgar”. Se você empurra com força, essa saída brusca, tende a romper a pele. Parece até, um pouco óbvio.

Então, com esse “empurrão”, no meu último grito, a cabeça do Zion terminou de sair e eu ganhei 3 lacerações no períneo que eu explico melhor daqui a pouco.
O Y costumava brincar que foi a “mordidinha do tubarão” porque pelas fotos dá para saber o momento exato da laceração – já que a coloração da água se alterou em segundos.

Eu segurava as mãos que tremiam junto ao meu corpo. E eu suava.
A contração havia parado e o Zion estava ali, cabeça para fora e corpo para dentro. Metade nascido, metade em mim. Segurava as minhas mãos, segurava a cabeça dele. Meu corpo tremia.
A parteira dourada segurou a minha perna e foi aproximando a mão. Eu quase a mordi.
Eu parecia um bicho e acho que olhei para ela com cara de que, se ela se aproximasse mais um único milímetro, eu iria arrancar a sua mão.

Quando você é comissário de voo, você é ensinado a utilizar a sua “voz de comando” no caso de uma emergência. É apenas uma maneira menos delicada de dizer o que as pessoas devem fazer no caso de uma evacuação por exemplo, de forma que elas realmente escutem o que você está dizendo – mesmo que elas estejam sob pressão, em um ambiente caótico e tomadas pelo desespero.
É a única maneira de “controlar” uma evacuação e evitar que as pessoas, movidas pelo pânico, façam coisas estúpidas – como por exemplo, pular de uma porta direto para o concreto ou fogo, à metros de altura, ao invés de simplesmente utilizar a escorregadeira que está na porta ao lado.
É preciso firmeza na voz de comando para garantir que os passageiros sigam as suas instruções em um momento de completo caos.

“EU PRECISO VER SE O CORDÃO ESTÁ ENROLADO”

Disse, sem elevar a voz, a parteira dourada.
Naquele momento eu descobri o que uma voz de comando é capaz.

Quando a contração seguinte começou a se aproximar, acho que ela percebeu o meu desespero e disse “fica tranquila, não vai doer mais”.
Ela tinha razão.
Na contração seguinte o corpo do Zion saiu, me desculpe a expressão Doutor, como um sabonete molhado.
Não teria outra forma de exemplificar.
É tão rápido, quem nem parecia mais que eu estava ali há horas.
Peguei o Zion, como eu queria, com a ajuda da parteira dourada que ajeitou ele na minha barriga.
O cordão do Zion era muito curto e eu não conseguia puxar ele mais para cima.
Eu ainda ardia em dor pois o cordão do Zion pulsava exatamente em cima da minha laceração.
E eu estava exausta Doutor Norman…
Mas me lembro perfeitamente da dose de euforia que se espalhou pelo meu corpo enquanto eu segurava o Zion. Eu podia senti-la fluindo em minha corrente sanguínea.
Todo o resto de dor havia passado.

“Ele tem o meu pé” foi a primeira frase construída pela minha cabeça.
“Ele tem o meu pé”.

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Algo me diz que essa foto dispensa legenda… Mas sim, ali na minha mão, é a cabeça do Zion.

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