Sessão #8.3 – O Medo da Morte

E foi assim que, as 07:18 da primeira terça feira de julho, nasceu o meu medo da morte.
Eu sei Doutor Norman, que essas provavelmente não eram as palavras que vocês esperava que saíssem da minha boca para relatar o nascimento do meu filho.
Mas eu sou assim, eu vejo as coisas de uma forma diferente.

Eu nunca tive um medo real de morrer. A morte para mim era apenas o destino final do meu voo. Não tinha essa paranoia com as coisas – não surtava ao andar de avião e confesso até, que sentia certa afinidade com as turbulências do trajeto. A iminência da morte não me dava medo, me dava vida.
Fazia eu me lembrar de quão frágil é o nosso corpo e de quão pequena é a nossa jornada.

A morte.
Alguém que todo mundo conhece bem – seja por perceber a sua existência ou por tê-la encontrado em alguém próximo – mas é como aquele ex-amor não correspondido que todo mundo quer esquecer.
Já percebeu, como todo mundo tem medo de falar de morte? Todo mundo tentando ignorá-la, como se ao fazer isso, a afastasse de alguma maneira.
Um grande erro, na minha opinião, da sociedade pós moderna.
Temos tanto medo da morte, que passamos a vida inteira evitando esse encontro, por menor ou mais necessário que isso seja.
Não vivenciamos mais o luto, por exemplo… Quando alguém próximo morre, você está “autorizado” a chorar por uns dias ou quem sabe até, dependendo da proximidade, algumas semanas; mas sofrer verdadeiramente, por meses, jamais. E se isso resolver se tornar necessário, viemos aqui e pedimos que vocês nos deem algum remédio para que isso possa parar.
Engraçado porque, antigamente, quando alguém muito próximo morria, você passava 1 ano usando apenas roupas pretas e depois, ainda passava mais 6 meses em tons escuros.
Parece bobeira para nós, tão acostumados a varrer tudo para debaixo do tapete. Mas eu acho que essa medida era realmente cabível – ela tornava não só visível a sua dor, como também, palpável. Era o sofrimento que a ausência de alguém próximo causara, expressa em cores.
Você era obrigado a enfrentar aquela dor ao invés de fingir que ela não estava ali, como fazemos hoje.
Até essa dor se tornou efêmera.
Acho que quando não vivenciamos o luto por completo, esticamos ele pelo resto de nossas vidas. Ele fica lá, como aquela última caixa de mudança no meio da sala, que nunca vai ser aberta e resolvida.
Mas acho que o mais grave acerca de ignorar a iminência da morte, ainda é o quanto isso acaba nos matando. Parece uma afirmação barata, mas quando não percebemos a nossa fragilidade e a maneira como podemos simplesmente morrer a qualquer momento, deixamos de prestar atenção em nossas vidas.
Se você soubesse que iria morrer em uma semana, provavelmente faria mais coisa nesse meio tempo do que fez em toda a sua vida.
O que não percebemos quando evitamos a morte ao ponto em que fazemos, é que mesmo à evitando, ela continua lá.
A sensação de imortalidade acaba com a vontade de viver das pessoas, afinal, temos a vida inteira para fazer as coisas não é Dr. Norman.
Só que a vida inteira, pode se resumir em até amanhã.

E foi em tudo isso que eu pensei enquanto segurava o Zion no colo pela primeira vez.
Pensei em como eu sempre vivi sabendo que em alguma esquina a morte poderia me pegar (como diria Raul Seixas na música ‘Canto para a minha Morte’); e como saber disso doeu naquele momento. E dói até hoje… E parece que vai doer para sempre.

“Eu não posso morrer.” – Essa foi a segunda frase que veio a minha mente.
“Eu não posso morrer. NUNCA MAIS.”

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Esse momento é a tradução literal de “Amor à Primeira Vista”.

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