Assinado, Mãe no Divã

Eu nunca durmo.
Só quem passa por restrição extrema de sono pode falar da angústia que é.
Não me lembro da última noite que eu dormi inteira. As vezes, até duvido que ela tenha se quer, existido.
Meu sono já está tão prejudicado que mesmo que eu não durma com o meu filho, eu não consigo dormir. Meu corpo já se acostumou com essa situação.
Se acostumou não, porque não acredito que seja possível se acostumar com tamanha atrocidade, mas ele já a tomou como verdade.
Você, que nunca caiu aos prantos de tanto sono, que nunca implorou com toda a sua força para que o seu filho dormisse ou que não se apavora ao ver a noite chegar por medo da dor que vai sentir por ter seu sono interrompido inúmeras vezes – você com certeza vai achar um exagero o uso da palavra atrocidade.
Eu não.
Eu, que nessa mesma noite em que escrevo, já acordei 6x e na última vez, as 04:30 da manhã me dei por vencida – depois de ficar exaustivamente ninando um bebê de 12kg pela casa, no equivalente à uma caminhada daqui a Paris – entendo dos males que a restrição de sono pode causar.
Porque passo o dia virada em um Zumbi. Não consigo dormir durante o dia e a quantidade de tarefas também não me autoriza à esse tipo de luxo.
E cada dia o número de tarefas aumenta, é claro – quem consegue produzir bem com tanto sono, com tanto cansaço?!
Cumprir prazos, trabalhar ou uma simples tarefa como lavar a louça, se torna um martírio para quem passou as noites do último ano e meio acordada.
Uma verdadeira tortura chinesa, em sua melhor versão.
Todos os sons irritam. Todos os acontecimentos desandam. Todos os imprevistos se tornam grandes desastres.
Outro dia, enquanto dirigia e chorava desesperada de cansaço, após mais uma noite em claro, é claro, uma senhora moradora de rua, se aproximou ao meu carro e disse “Não chora não, a vida é essa bosta mesmo, a gente tem que se acostumar – chorar não muda nada.”
Acho que foram as palavras mais sábias que ouvi nos últimos tempos.
Passei o primeiro ano inteiro esperando meu filho fazer um ano, porque todo mundo me dizia que depois de um ano, a coisa melhorava.
Imagina a minha surpresa, quando com um ano e um mês, meu filho passou a acordar 9 vezes em cada noite, ao invés de 4 ou 5.
Você já deve estar pensando em alguma solução mágica para me passar, mas nem se incomode – em quase 500 noites, já deu para tentar muita coisa.
Na verdade, meu filho é absurdamente saudável e acorda simplesmente para brincar e mamar. Porque parece que o dia inteiro, simplesmente não é o suficiente. Então, apesar da noite bizarra que a gente teve, ele está aqui, brincando e se divertindo com uma caixa de canetas e eu brincando e me divertindo com um monte de palavras.
Como não sou do senso comum e não trabalho com a maternidade à moda Disneylandia, não vim aqui para te dizer que com o tempo a coisa melhora. Na verdade, no que cabe a maternidade, tenho reparado que é exatamente o contrário.
A expectativa de que ficaria mais fácil, me tornou mais fraca, e quando não melhorou, a queda foi muito mais dolorida do que se eu tivesse preparada.
Então, eu vim aqui para dizer, que essa noite, quando fui botar o meu filho para dormir, eu dei um beijinho no rosto dele e pela primeira vez sem eu pedir, ele segurou o meu rosto e me beijou de volta. Em uma das suas acordadas, ele levantou me procurando e dizendo “Mamãe, Mamãe” pela casa escura enquanto eu já perambulava pela noite e me deu um forte abraço antes de voltar a dormir, como se eu fosse, de fato, o melhor lugar do mundo.
Eu não vim aqui para te dizer que vai ficar mais fácil – porque eu não acho que vai.
Eu vim aqui pra te dizer que vai ficar muito, mas muito mais recompensador – então trate de ficar mais forte.”

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