Sessão #9 – Dequitação da Placenta

Olá Doutor, onde foi que eu parei? Ah, sim…

Eu ainda sentia muita dor do combo laceração/cordão umbilical e pedi para ir para o quarto (leia-se dar dois passos para o lado e cair na cama de casal – aquilo ainda era uma kitnet). Me levantei com a ajuda do Y, e com o Zion no colo fui para o quarto. Quando me deitei, o cordão já havia parado de pulsar e a minha parteira do coração auxiliou o Y para que ele fizesse o corte do cordão umbilical.
Eu olhava tudo: contava os dedos, analisava as unhas, percebia as articulações daquele ser que acabara de sair de dentro de mim. Ele saiu de dentro de mim.
Perguntei se era normal eu estar sentindo um certo desconforto na região da bacia, que aumentava gradativamente e fazia com que eu tivesse uma certa dificuldade de me movimentar. Era como uma cólica baixinha.
A parteira dourada disse que devia ser a placenta e ao sentar-se a minha frente para verificar, a minha placenta já estava ali, nascendo.
Não dói nada viu Doutor, é apenas um desconforto momentâneo.

Assim que nasceu, a minha parteira dourada já a pegou e começou a verificá-la “nós adoramos placenta”. Parece meio bizarro ouvir isso, mas elas me disseram que dá para saber muito sobre a saúde do bebê apenas olhando para a placenta. A árvore da vida. “Ela é linda, você quer ver?”.
Ela era, de fato, linda. Todos aqueles vasos e irrigações pareciam mesmo uma árvore. A árvore sagrada – mais uma vez marcando presença na minha vida, assim como aquele grupo que eu participei em 2007, que tanto mudara o meu caminho. Aqui está uma notícia da nossa primeira apresentação, para você poder entender um pouco melhor sobre o que eu estou falando. A garota “endredada” da foto sou eu.

Nem preciso dizer o tanto que as pessoas ficavam chocadas ao chegarem na minha casa e lerem um recado feito pelo Y e colado à porta da geladeira “Tomar Placenta”.
Sim, a minha parteira do coração transformava placenta em comprimidos se você quisesse consumi-la ao longo do pós parto. E obviamente eu o fiz. Não só porque é uma grande fonte de vitaminas e nutrientes, incluindo o ferro; como também porque auxilia na amamentação, diminui o “baby blues”/depressão pós parto e aumenta o tônus uterino diminuindo o sangramento.
A prática ainda é relativamente recente aqui no Brasil, mas já é bastante comum no exterior.
E não precisa ficar com nojinho não Doutor Norman, porque a placenta virou um potinho cheio de cápsulas iguais aquelas de homeopatia, e ficavam guardadas dentro do congelador.
Inclusive, algumas mulheres guardam para usá-la como repositor hormonal durante a menopausa.

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Cordão Umbilical do Zion que a Parteira do Coração eternizou.

Sessão #8.4 – Amor Maior

Louco isso não é Doutor Norman, de como a vida e a morte caminham sempre dividindo uma linha tão tênue.

De qualquer forma fiquei ali algum tempo, não me lembro exatamente o quanto. Apenas curtindo, olhando, sentindo. O Zion não chorou, teve um apgar 10 e ainda por cima, ao nascer, apenas olhou para mim e voltou a dormir. Na verdade ele dormiu aquele dia inteiro e a noite inteira seguinte também. Se eu soubesse que ele ia ficar tão acordado futuramente eu tinha acordado ele e dito “filho, economiza esse sono que nós vamos precisar dele mais pra frente”.
Enfim, você pensa muitas coisas quando você vê o seu bebê pela primeira vez e ao mesmo tempo não pensa em nada. Parece que os pensamentos são todos em emoção. É muito louco. Principalmente porque você passa 9 meses se preparando para este momento e quando ele chega você está tão despreparado que não sabe nem onde colocar as mãos.
Não há tempo que seja o suficiente para se preparar para esse encontro.
Porque não há como se preparar para encontrar-se com o maior amor do mundo.
Simplesmente não há.

Bom Doutor, essa consulta foi bem longa né, mas como não poderia ser?!
Nos vemos amanhã!

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“Te amarei de janeiro a janeiro, até o mundo se acabar.”

Sessão #8.3 – O Medo da Morte

E foi assim que, as 07:18 da primeira terça feira de julho, nasceu o meu medo da morte.
Eu sei Doutor Norman, que essas provavelmente não eram as palavras que vocês esperava que saíssem da minha boca para relatar o nascimento do meu filho.
Mas eu sou assim, eu vejo as coisas de uma forma diferente.

Eu nunca tive um medo real de morrer. A morte para mim era apenas o destino final do meu voo. Não tinha essa paranoia com as coisas – não surtava ao andar de avião e confesso até, que sentia certa afinidade com as turbulências do trajeto. A iminência da morte não me dava medo, me dava vida.
Fazia eu me lembrar de quão frágil é o nosso corpo e de quão pequena é a nossa jornada.

A morte.
Alguém que todo mundo conhece bem – seja por perceber a sua existência ou por tê-la encontrado em alguém próximo – mas é como aquele ex-amor não correspondido que todo mundo quer esquecer.
Já percebeu, como todo mundo tem medo de falar de morte? Todo mundo tentando ignorá-la, como se ao fazer isso, a afastasse de alguma maneira.
Um grande erro, na minha opinião, da sociedade pós moderna.
Temos tanto medo da morte, que passamos a vida inteira evitando esse encontro, por menor ou mais necessário que isso seja.
Não vivenciamos mais o luto, por exemplo… Quando alguém próximo morre, você está “autorizado” a chorar por uns dias ou quem sabe até, dependendo da proximidade, algumas semanas; mas sofrer verdadeiramente, por meses, jamais. E se isso resolver se tornar necessário, viemos aqui e pedimos que vocês nos deem algum remédio para que isso possa parar.
Engraçado porque, antigamente, quando alguém muito próximo morria, você passava 1 ano usando apenas roupas pretas e depois, ainda passava mais 6 meses em tons escuros.
Parece bobeira para nós, tão acostumados a varrer tudo para debaixo do tapete. Mas eu acho que essa medida era realmente cabível – ela tornava não só visível a sua dor, como também, palpável. Era o sofrimento que a ausência de alguém próximo causara, expressa em cores.
Você era obrigado a enfrentar aquela dor ao invés de fingir que ela não estava ali, como fazemos hoje.
Até essa dor se tornou efêmera.
Acho que quando não vivenciamos o luto por completo, esticamos ele pelo resto de nossas vidas. Ele fica lá, como aquela última caixa de mudança no meio da sala, que nunca vai ser aberta e resolvida.
Mas acho que o mais grave acerca de ignorar a iminência da morte, ainda é o quanto isso acaba nos matando. Parece uma afirmação barata, mas quando não percebemos a nossa fragilidade e a maneira como podemos simplesmente morrer a qualquer momento, deixamos de prestar atenção em nossas vidas.
Se você soubesse que iria morrer em uma semana, provavelmente faria mais coisa nesse meio tempo do que fez em toda a sua vida.
O que não percebemos quando evitamos a morte ao ponto em que fazemos, é que mesmo à evitando, ela continua lá.
A sensação de imortalidade acaba com a vontade de viver das pessoas, afinal, temos a vida inteira para fazer as coisas não é Dr. Norman.
Só que a vida inteira, pode se resumir em até amanhã.

E foi em tudo isso que eu pensei enquanto segurava o Zion no colo pela primeira vez.
Pensei em como eu sempre vivi sabendo que em alguma esquina a morte poderia me pegar (como diria Raul Seixas na música ‘Canto para a minha Morte’); e como saber disso doeu naquele momento. E dói até hoje… E parece que vai doer para sempre.

“Eu não posso morrer.” – Essa foi a segunda frase que veio a minha mente.
“Eu não posso morrer. NUNCA MAIS.”

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Esse momento é a tradução literal de “Amor à Primeira Vista”.

Sessão #8.2 – O Expulsivo

Não era sobre os tipos de maternidade que eu vinha falar nessa consulta não é Dr. Norman Bates?!
Eu não me esqueci que havia prometido à você que eu falaria do nascimento do Zion nessa consulta.
Me lembro de ter parado em algum lugar próximo ao meu “exame de toque autônomo”.

Eu estava na posição de quatro apoios e a dor era muito forte. Eu já estava muito, muito cansada mesmo. Os meus braços tremiam e apesar daquela ser a posição mais confortável que eu havia encontrado, eu não conseguia mais me manter nela, o cansaço tomava conta. Aqueles momentos de descanso, antes sugeridos pelas minhas parteiras e substituídos pelo passeio ao longo do dia, começavam a fazer a maior falta do mundo.

Olhei pela janela e vi o dia amanhecendo – eu havia perdido a noção do tempo no início da noite e aquele foi o primeiro momento que tive alguma ideia de quanto tempo se passara. Também tive a certeza que o Zion estava para nascer – sentia que ele nasceria logo pela manhã e me lembro perfeitamente de pensar “Que bom, o dia está amanhecendo é sinal que já vai acabar”.

Eu amo o amanhecer. Sou uma mulher da manhã.

Olhei para a minha parteira do coração e disse “Eu não aguento mais, o meu braço está doendo muito!”. Eu suava. Em bicas. E tremia. Meus braços tremiam como se sustentassem um edifício inteiro.
“Porque você não tenta ficar de cócoras, se virar um pouco? Pode ficar mais confortável. Y, pegue aquela cadeira e ajude ela a se apoiar.”
O Y sentou na cadeira junto à banheira e colocou as pernas para dentro da água. Fiquei de cócoras, encostada nele, com meus braços apoiando em suas pernas. Acho que ele também usou os braços para me segurar e acredito que tenha feito bastante força, porque eu estava realmente cansada.
Pelas fotos dá para ver que eu me apoiei muito nele nesse momento do parto. Fisicamente.
Emocionalmente ficamos bastante distantes durante o parto inteiro.
Não fomos aquele casal amoroso como nos vídeos de parto domiciliar do YouTube.
Como eu disse, meu parto não foi bonito, mas foi bastante sincero.
Eu não acho que esse seja o momento de eu me aprofundar na razão desse distanciamento, até porque, eu mesma só fui compreender racionalmente o porque daquele afastamento, meses depois da nossa separação. Mas quando parimos, nossas emoções tomam conta, da forma mais sincera possível. Como comentei antes, não dá para mentir na hora do parto. Mesmo que você sempre minta para você mesma.

De qualquer forma, ao me virar e posicionar de cócoras, mergulhei profundamente no universo da partolândia. Atrás de mim, estava o Y me segurando. Sentada a minha frente, minha parteira do coração e ao meu lado estava a parteira dourada acompanhando atentamente os batimentos cardíacos do Zion.
Pelo menos foi o que disse o Y.
Porque eu sinceramente não me lembro.

Me lembro de olhar para a minha parteira do coração e para a parteira dourada e tentar entender as palavras que saíam de suas bocas. Eu não escutava nada.
Sabe Doutor, quando (antigamente) a fita cassete começava enrolar no gravador e a voz começava a sair de forma bem lenta e grave? Era assim que eu ouvia o que elas diziam.
Eu estava completamente entregue aquele transe.
Já não lutava mais e a dor já não era como antes. Ela já tinha ultrapassado o limite da dor. Aquele limite em que você simplesmente a para de sentir.
Minha parteira do coração, me aconselhara, enquanto eu estava na posição de quatro apoios, a tentar vocalizar. Ao vocalizar, você relaxa a garganta e consequentemente a vagina.
Quando virei de cócoras eu já tinha passado da fase de vocalizar. Eu gritava.
Mas não era um grito comum, da garganta. Era um grito do corpo, do bicho.
Quando a contração vinha, minha barriga mudava de formato, de tão forte que ela era, e o grito saía pela minha boca como se nascesse daquela pressão.
Eu já estava chegando ao término da descida do meu bebê. Nesse momento, a dor da contração já passa, de certa forma, despercebida. Eu sentia mesmo era o cabelo do Zion “raspando” no canal de parto.
Esse “desconforto” é comumente comparado ao sexo sem lubrificação.
Sua cabeça começou a coroar e uma dor completamente diferente se apresentou.

A primeira vez que ouvi a expressão “Cículo de Fogo” foi em uma entrevista da Gisele Bundchen à sua parteira em um programa da TV chamado “Parto pelo Mundo”.
Ela citou essa expressão e eu imediatamente entendi à que ela se referia, mesmo sem saber o seu significado.
Quem passa pela experiência de um parto sem episiotomia, provavelmente se lembra desse momento.
Não haveria descrição melhor para aquela intensa ardência, do que Círculo de Fogo.
Era exatamente o que eu sentia enquanto a cabeça do Zion coroava. A pele esticava e queimava como se existisse ali, ao redor da cabeça dele, um círculo de fogo. Que queimava. E ardia.
Eu dizia “vai rasgar, vai rasgar” e segurava a minha mão, uma com a outra, com força.
No inicio da coroação, eu estava com a mão ali, na cabeça do meu filho. E eu queria tocar. Era esse o meu impulso, o de colocar a mão. Mas agora, ardia além do toque.

Eu sei Doutor, pela sua cara posso perceber que você está sentindo uma grande aflição. Eu também sinto toda vez que eu me lembro.

A parteira dourada dizia que não tinha rasgado, que o meu períneo estava intacto, que era só impressão. Aquela ardência insana me causava um certo desespero – “vai rasgar, vai rasgar” – eu repetia.
Elas tentavam me acalmar… Até que a contração parou e a cabeça do Zion ficou ali, meio a meio.
Eu tremia, mais do que de dor. Estava além de exausta e percebi que não aguentaria a próxima contração. Eu estava muito, mas muito cansada mesmo – sentia como se eu fosse desmaiar. Não conseguia nem verbalizar essa sensação para as minhas parteiras e achei que uma decisão precisava ser tomada.
E na contração seguinte, mesmo sabendo que eu não devia, eu empurrei.

Doutor, o maior causador de lacerações em partos, definitivamente é essa força, fora da contração, para empurrar o bebê para fora. Se você respeita as contrações, o bebê costuma passar sem “rasgar”. Se você empurra com força, essa saída brusca, tende a romper a pele. Parece até, um pouco óbvio.

Então, com esse “empurrão”, no meu último grito, a cabeça do Zion terminou de sair e eu ganhei 3 lacerações no períneo que eu explico melhor daqui a pouco.
O Y costumava brincar que foi a “mordidinha do tubarão” porque pelas fotos dá para saber o momento exato da laceração – já que a coloração da água se alterou em segundos.

Eu segurava as mãos que tremiam junto ao meu corpo. E eu suava.
A contração havia parado e o Zion estava ali, cabeça para fora e corpo para dentro. Metade nascido, metade em mim. Segurava as minhas mãos, segurava a cabeça dele. Meu corpo tremia.
A parteira dourada segurou a minha perna e foi aproximando a mão. Eu quase a mordi.
Eu parecia um bicho e acho que olhei para ela com cara de que, se ela se aproximasse mais um único milímetro, eu iria arrancar a sua mão.

Quando você é comissário de voo, você é ensinado a utilizar a sua “voz de comando” no caso de uma emergência. É apenas uma maneira menos delicada de dizer o que as pessoas devem fazer no caso de uma evacuação por exemplo, de forma que elas realmente escutem o que você está dizendo – mesmo que elas estejam sob pressão, em um ambiente caótico e tomadas pelo desespero.
É a única maneira de “controlar” uma evacuação e evitar que as pessoas, movidas pelo pânico, façam coisas estúpidas – como por exemplo, pular de uma porta direto para o concreto ou fogo, à metros de altura, ao invés de simplesmente utilizar a escorregadeira que está na porta ao lado.
É preciso firmeza na voz de comando para garantir que os passageiros sigam as suas instruções em um momento de completo caos.

“EU PRECISO VER SE O CORDÃO ESTÁ ENROLADO”

Disse, sem elevar a voz, a parteira dourada.
Naquele momento eu descobri o que uma voz de comando é capaz.

Quando a contração seguinte começou a se aproximar, acho que ela percebeu o meu desespero e disse “fica tranquila, não vai doer mais”.
Ela tinha razão.
Na contração seguinte o corpo do Zion saiu, me desculpe a expressão Doutor, como um sabonete molhado.
Não teria outra forma de exemplificar.
É tão rápido, quem nem parecia mais que eu estava ali há horas.
Peguei o Zion, como eu queria, com a ajuda da parteira dourada que ajeitou ele na minha barriga.
O cordão do Zion era muito curto e eu não conseguia puxar ele mais para cima.
Eu ainda ardia em dor pois o cordão do Zion pulsava exatamente em cima da minha laceração.
E eu estava exausta Doutor Norman…
Mas me lembro perfeitamente da dose de euforia que se espalhou pelo meu corpo enquanto eu segurava o Zion. Eu podia senti-la fluindo em minha corrente sanguínea.
Todo o resto de dor havia passado.

“Ele tem o meu pé” foi a primeira frase construída pela minha cabeça.
“Ele tem o meu pé”.

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Algo me diz que essa foto dispensa legenda… Mas sim, ali na minha mão, é a cabeça do Zion.

Sessão #8.1 – A Maternidade e suas Vertentes

Bom dia Doutor Norman!

Olha, só parece que eu estou de bom humor, mas na verdade é café.
Hoje eu acordei pensando que eu queria muito ler um livro de maternidade escrito pelo Nelson Rodrigues, sabe?! Já imaginou: A Maternidade Como Ela É – de Nelson Rodrigues.
Ia ser sensacional…

Como você não é mãe, provavelmente você não sabe, mas pelo que eu tenho observado, existem 3 vertentes da maternidade: a maternidade convencional, a maternidade alternativa e a maternidade real.

Eu não vou ficar aqui falando para você o que as duas primeiras dizem porque eu com certeza não seria justa, já que fui “militante” da maternidade alternativa por muito tempo; porém, o que eu posso dizer é que existe uma infinidade de livros à respeito de ambas e uma intensa ditadura envolvida nas duas. Cheguei a conclusão que elas não são muito flexíveis e mais do que isso, elas não falam da realidade, de uma forma geral; além de criarem uma verdadeira “guerra” entre as mamães que vivem condenando umas as outras, apontando o que é “certo” e o que é “errado”.
Então, já faz algum tempo, que venho procurando alguém que fale da maternidade real. Mas é difícil sabe Doutor, me parece ser um grande tabu. Sim, tabu. Tenho a impressão que qualquer pessoa que tente falar da maternidade como ela é, de fato – nem tão convencional, nem tão alternativa – acaba caindo no julgamento dessas duas ditaduras maternais. Por isso, sonho desesperadamente em encontrar o “Nelson Rodrigues” da maternidade.

Tô cansada de participar de grupos de maternidade onde as mães postam atitudes de outras mães e ficam ali, atirando pedras dizendo “que horror”, “como ela pode fazer isso”; sem conhecer um terço da vida da pessoa.
Horror, para mim é ficar julgando sem saber, sem conhecer a história. Isso sim é um péssimo modelo de criação, na minha opinião.
Se a mulher fez parto cesárea, é uma egoísta; se fez domiciliar, é louca; se amamenta em público, é promíscua; se dá mamadeira, é preguiçosa; se bota na creche, não liga pro filho; se não trabalha, é folgada; se reclama, não deveria ser mãe; se não reclama, eu acredito fielmente que mente.
Sabe aquilo que eu falei na consulta passada, sobre a constante sensação de culpa?! Acho que parte dela vem daí, da falta de livros sobre a maternidade real, sobre a mãe real. Aí, parece que a maioria das mães, para se sentirem menos culpadas por não se enquadrarem em nenhum desses modelos surreais de maternidade (porque ninguém se enquadra), ficam se justificando atirando pedras nas outras tipo “eu não fiz parto normal, mas amamentei até os 10 anos do meu filho – pior é aquela ali: acredita que ela não quis amamentar?!”. Ora, por favor!

Quero conhecer uma mãe totalmente convencional ou totalmente alternativa, que nunca fez nada de “errado” – porque sabe Doutor, acredito fielmente que essa mãe não existe.
A mãe real nem sempre consegue seguir as fórmulas, nem sempre é padrão. A mãe real segue o coração, faz o que dá, o que acredita. Faz o seu máximo se desdobrando em mil, mesmo que isso não seja o que está no livro. Nem toda vida é padrão. Nem toda vida segue fórmulas!
Mães ficam cansadas, ficam confusas, se questionam…
E é tudo normal!
Nenhum bebê vem com manual de instruções e nenhuma criança é igual.
Se fosse assim, como a gente poderia explicar famílias com filhos tão diferentes… Um faz birra, o outro não… Dizer o que? Que os pais “perderam a mão” no segundo filho?!
E como explicar isso no caso de gêmeos?
Bebês são seres humanos, com vontade e personalidade própria; não são robôs que você programa com um conjunto de códigos. Eles não seguem todos a mesma regra. Você precisa decifrar, descobrir, conhecer. Não existe manual, não sei porque as pessoas continuam tentando enquadrar a maternidade em uma espécie de fórmula já que existem tantas possibilidades de criação, de ambiente, de cultura!

Outro dia li uma matéria sobre uma mãe que contratou uma “encantadora de sono”, porque ela e o marido não aguentavam mais não dormir a noite. Acredita Doutor Norman, que ela pediu para manter o nome em segredo porque eles não haviam contado para ninguém, por medo de serem julgados péssimos pais?! E foram mesmo – na mesma postagem, choviam comentários condenando a atitude deles e dizendo “que tipo de filhos vocês estão criando”.
Ué, pensei indignada, acho que os normais né, iguais aos das outras pessoas que tem babá, empregada, avó, marido, tia ou sei lá quem para segurar a barra quando os pais estão trabalhando ou cansados.

Aliás, nesse mesmo dia, ao comentar em uma rede social que o meu filho não dorme direito, uma mamãe bastante educada (para não dizer a verdade) me mandou uma mensagem dizendo que o meu filho não dorme a noite por incompetência minha, porque eu dou mamadeira para ele no meio da noite e porque ele não dorme no berço – os filhos dela dormem que é uma beleza, a noite toda, e ela não precisou de nenhuma encantadora de sono para isso (então ela sabe a fórmula mágica – mamadeira/berço).
Fiquei pensando se na cabeça dela, eu sou uma espécie de mãe masoquista que nunca tentou de tudo para que o filho dormisse a noite toda porque ama de paixão dormir mal todas as noites e viver movida a base de café.
Nem me dei ao trabalho de tentar explicar, já que a educação dela ultrapassava essa barreira e apenas respondi “Olha, acho que no fundo, você tem toda razão… Faz o seguinte, vem aqui, dormir uma semana na minha casa e resolve esse problema para mim.” mas acho que ela se ofendeu com o meu convite, que por sinal, era bastante sincero.

Porque eu penso assim né Doutor Norman – quem critica, deve saber fazer melhor.

Sessão #7 – O Sono Constante

Oi Doutor Norman… Como de costume, na última consulta eu disse “até amanhã” e apareci semanas depois.
Tenho percebido que a constante privação de sono me deixa desanimada, preguiçosa, depressiva ou tudo isso ao mesmo tempo; e desenvolvo uma vontade insana de ficar parada, no tempo, vendo a vida passar, embaixo das cobertas da minha cama. Principalmente quando o dia acorda cinza como hoje.
Mas quem tem filho sabe que a coisa não funciona bem assim; afinal, tem roupa pra lavar, casa pra limpar e vida para ganhar, não é mesmo Doutor?!

Na verdade, eu não sei se acontece com todo mundo, mas o fato é que hoje, eu tenho pouquíssimas coisas que me incomodam na vida comparado ao início deste ano. Acredite, de lá para cá, as coisas melhoraram muito. Não que eu não tenha mais contas para pagar, quilos à perder, concursos para passar ou filho para criar; nada disso. A questão é que emocionalmente têm ficado mais fácil, mais simples.
Acho que a gente ama o filho quando ele nasce, mas é conforme ele vai crescendo que a gente vai ficando louca por ele.
As inseguranças começam a passar e uma grande determinação e vontade de vencer na vida tomam conta de você… É muito louco.
Mas mesmo assim, dia ou outro, eu dou uma desanimada e começo a pensar que eu não vou dar conta.
Eu crio meu filho sozinha né Dr. Norman. Sozinha, no sentido do núcleo familiar.
Eu tenho um super apoio da minha família e sinceramente, não sei como eu estaria sem eles; mas no final das contas, é sempre você com você mesmo, não é?!
E quando você tem filho, é você mesmo e seu filho. E no meu caso: eu comigo, meu filho e o Gato ranzinza.
No final das contas, a responsável (ou irresponsável, dependendo do caso) sou eu.
Porque eu sou a mãe. E a “culpa” é sempre nossa.
Mesmo que a gente não queira, ou que ninguém aponte, a gente sempre descobre um jeito de achar que a “culpa” é nossa.
Então, tem dias que o medo toma conta. Que eu penso, como eu vou fazer? Como vou sustentá-lo? Como vou ensiná-lo? E outros questionamentos bobos como esse.
Bobos porque, como eu já disse aqui; como vivenciei no meu parto, ser mãe, é ser capaz. Capaz de qualquer coisa. Até do que a gente não acredita que consegue.

Nessas idas e vindas, eu comecei a observar que esses dias mais obscuros, aconteciam sempre na sequência de um “combo” de noites mal dormidas.
Porque eu fico cansada.
E me desorganizo.
E as coisas acumulam.
E a correria aumenta.
E o cansaço triplica.
Hoje, a pressão de “vencer” constantemente é muito maior do que quando eu não tinha filho.
Quando eu engravidei, pirava em como eu ia conseguir me tornar, em apenas 9 meses, a mulher que eu pensei que teria a vida inteira para ser.
Obviamente, eu fui um fracasso na missão e nos primeiros meses do Zion eu estava mais confusa do que antes de tudo. Muito mais forte, só que, depois do meu parto, a mulher que eu era antes, desapareceu, e a que nasceu, eu ainda não conhecia. Foi preciso algum tempo para me reconhecer depois de tamanha mudança.
Vou dar um exemplo grotesco Doutor, mas é mais ou menos assim: Antes de engravidar eu era vegetariana, nunca sentia vontade de comer carne, não fazia a menor falta. Durante a gravidez, eu salivava ao ver um pedaço de bife, parecia um bicho – inclusive, quando fui fazer o ultrassom morfológico, nas 22 semanas de gestação (eu acho), o médico me perguntou se eu era vegetariana porque tinha uma “portinha” aberta no cérebro do Zion, que só costuma acontecer quando a mãe consome pouquíssima proteína, não só na gestação, mas na vida.
Óbvio que eu surtei quando ele falou isso.
Mas aí ele disse que não era nada demais, era apenas uma característica que dava para observar naquele caso e que a consequência, caso o consumo de proteína não aumentasse e a “portinha” não fechasse, seria que talvez o Zion desenvolvesse uma certa dificuldade de concentração.
Cheguei a conclusão que a minha mãe não deve ter comido nada de proteína até o meu nascimento.
Mas enfim, como eu ia dizendo, hoje, eu faço uma dieta que tem a proteína como protagonista.
Não é louco?
O que eu quero dizer Doutor, é o seguinte: Depois que o Zion nasceu, os meus gostos mudaram, as minhas buscas mudaram; até o meu jeito de me vestir mudou.
Você vive uma vida até engravidar, outra durante a gestação e uma terceira, completamente diferente, depois que o seu filho nasce.
E as vezes, quando você está muito cansada, você acaba se confundindo com todas essas personalidades; com todas essas vidas.
Afinal, quando você pari, você dá a vida não é mesmo? Dá a vida, a você, ao seu filho e ao mundo.

Bom Doutor, eu sei que eu ainda não terminei de te contar o meu parto e que não era para eu falar sobre isso hoje, mas foi o que eu senti vontade de conversar… Não consigo controlar os assuntos que a minha mente escolhe devanear, quando eu venho aqui.
Prometo que eu venho amanhã e conto como foi o expulsivo do meu parto, para darmos continuidade nessa história.
Enquanto isso vou dar uma agilizada na minha vida aqui porque percebi que a minha felicidade mora na minha disciplina. E o emagrecimento também!
Sabe Dr. Norman Bates, com o Zion acordando de hora em hora toda noite, há meses, descobri que as vezes a vida simplesmente não fica mais fácil.
Então, a gente é que tem que ficar mais forte.

Boa noite Doutor, até amanhã!